O meu caso com pianos tem já perto de 40 anos.
Seria eu um puto de segundo ano (na altura, segunda classe) e ensinava alguns vizinhos a aprender melhor depois da escola o que nela não tinham conseguido.
O meu preferido de todos era o João Guerra. Não pelo João, nem pelas guloseimas que uma e outra vez recebia de sua mãe, mas pelo piano vertical. Nesse piano tocava, melhor, mexia eu todos os dias depois das "explicações" ao João.
Mais ou menos pela mesma altura a avó Teresa, pelos seus quase 80 anos, cozinhava ainda em casa dos Teixeira.
Os Teixeira eram uma família rica, muito rica, com casas, terras, caseiros, famílias inteiras de criados e até uma igreja na quinta lá perto de Setúbal.
Tinham os Teixeira também eles um piano vertical na sua casa de cidade, ali à Lapa, em Lisboa.
Depois de visitados os doces e os petiscos do dia da avó, com frequência as minhas deambulações pelo quase palácio acabavam no dedilhar fascinado das teclas brancas e pretas do lindíssimo piano dos Teixeira.
Passado este tempo todo remanesce o mesmo desejo e a mesma certeza de então: um dia vou ter um piano.
