Grassa no país, e não é apenas hoje, um estar de vistas curtinhas, que se lamenta e dramatiza os défices e as dívidas (pública e externa), as inflações, as taxas de desemprego e tantas outras métricas que todos os dias situação e oposição vão brandindo.
Nos velhos conceitos aprendidos no liceu todos lembramos o significado da conjuntura. Pois todos os lamentos e acusações parece-me situarem-se obsessivamente na conjuntura, como se mais não se devesse fazer senão apagar fogos.
Mas afinal o que origina o incêndio global e permanente de onde derivam os fogos que uns querem apagar e outros dizem que quase não existem?
Que mal ou males de fundo, constantes, não resolvidos, andam por aí metidos na gente e nas coisas portuguesas?
Será apenas a periferia geográfica?
É antes um insuperável mal de espírito, de onde derivariam as tão míticas saudades, ou o fado, como se nos fundadores do país tivesse sido instilado um vírus incapacitante?
Claro que há o Eduardo Lourenço, o Adriano Moreira, o Gonçalo Ribeiro Telles e outros que, responsavelmente, se vão encarregando de deslocar a conversa para a compreensão das coisas longas.
Já no país que todos os dias se mexe em nosso nome, os Sócrates e as Manuelas Leites que temos, é a espuma das circunstâncias, seja ela rosa ou cinzenta, é por aí que sempre parece preferirem ir.
Para não ser como os que acuso, deixo uma nota para reflexão quanto a um dos males de ciclo longo que nos afectam: a resultante é que nós, sobretudo os portugueses urbanos, de classe média, moderadamente letrados, temos dificuldades imensas em trabalhar no duro continuamente, todo o dia, todos os dias, tipo pegar numa missão e levá-la adiante com grande foco, máxima concentração, pouca conversa e muita acção e reflexão.
O português médio não cumpre horários nem objectivos no tempo, dispersa-se quando trabalha, deriva para a conversa e o cafézito sempre que tem assunto, disseca minudências e coscovilha incessantemente.
E o que causará esta incapacidade para a boa produtividade, que considero tão atávica do português médio? Dou duas pistas como hipóteses: a cultura católica, muito impregnada e resultante numa desculpante e permissiva cultura de trabalho e a muito tardia e diminuta eclosão da cultura operária em Portugal.
Em grande medida, Portugal passou de país rural, que era até final dos anos de 1960, para país de muitos serviços, designadamente de muito retalho.
Por outras palavras, passou directamente do quase analfabeto (mais de 40% de analfabetismo há 40 anos) e ignorante país das couves para o país das conversas.
A débil eclosão industrial originou a permanência de ciclos de trabalho pouco sistemáticos e quase ignorou a importância dos ciclos repetitivos, típicos das indústrias do centro e norte da Europa, e prejudicou a emergência de sistemas organizativos em equipa, com o que implicavam de trabalho metódico, interligado, colectivo, exigente e inescapável.
E como resolver este mal permanente, perguntará alguém? Pelo sistema de ensino, em primeiro lugar. A cultura do trabalho intensivo e feito no tempo devido, dos deveres a que não se possa fugir, a cultura da concentração máxima, a consciência do dever face ao trabalho proposto, tudo isso deve começar a ser trabalhado na escola, desde o início.
Digo, por isto, que, a bem do progresso e do bem estar geral, o país não precisa de uma reforma do ensino, precisa de uma grande e ousada revolução, capaz de por aqui instilar, impregnar mesmo, nas crianças a consciência da necessidade cultural básica do que os ingleses chamam de "hard-working".
