O Humberto e eu não nos entendemos mesmo. Não gosta que eu olhe para ele e eu não gosto que não goste que eu olhe. Por isso olho. Nem que seja para perceber o que haverá que leve alguém a não gostar que eu o olhe de frente.
Vem de longe este meu problema.
No liceu Pedro Nunes havia um tal Abel, um tipo bem mais velho, corpulento e ladino do Casal Ventoso, talvez o único mais pobre que eu daquele liceu. Nem durou uma semana até que me ameaçasse com um "se me continuas a olhar assim vou-te aos cornos". Fiz um esforço mas lá voltei à tendência. E lá me veio o Abel com um estalo dos que doem. Dessa vez, medida a desproporção corporal, lá me fiquei.
Voltando ao Humberto, a coisa fica mais escura quando a bebida já vem com ele. Como hoje. Mal o olhei, apenas fugazmente e lá estava a irritação bem espelhada. Um destes dias vou perguntar-lhe directamente o que o aflige tão intensamente. No caso longínquo do Abel dizia ele que era do sentido inquisitivo do meu olhar, que o desconfortava.
Nem por acaso, faz agora uns 25 anos, 10 anos depois do episódio do Abel, chegou a ser urdido contra mim um cerco seguido de ataque por parte de alguns "dealers" de droga do Casal Ventoso, o bairro do Abel. Nessa altura eu visitava quase diariamente o bairro, frequentemente vestido de preto, mala ou mochila preta também. Até que alguém os descansou com as minhas actividades político-sociais. O pensamento do gangue da Rua Principal do Casal Ventoso é que eu era um agente da PJ encapotado.
Já devia ser do olhar também.
