Desde miúdo que mantenho uma particular relação com as mudanças. Por vezes são pequenas coisas, a inversão do critério de arrumação dos livros, ou dos discos. Em outros casos muda quase tudo, num repente uma sala é virada às avessas, ou mesmo duas salas trocam uma com a outra. Há seis anos, quando troquei de casa, foi mesmo uma festa. Foi uma semana inteira no planeamento e empacotamento de tudo e mais alguma coisa. No próprio dia, duas camionetas e uns dez homens tudo recolheram e tudo depositaram na casa nova. A escada telescópica deu ao evento maravilhoso cunho espectacular. Dois dias depois a nova casa aparecia-me como um bálsamo na vida. Como se fosse uma nova vida. Anseio aliás por uma próxima troca de casa, não porque me falte algo em concreto, mas para, novamente, ter a ocasião de dispor tudo de maneira diversa. Já me perguntaram como explico eu esta inclinação, ou esta mania, como alguns lhe chamam às vezes. Nem sei bem. Dir-se-á que mudar é imanente ao ser humano, é sinónimo de progresso. Será. Mas, para mim, mudar é melhorar a qualidade de vida, a minha qualidade de vida. Mudar é fustigar o cansaço das coisas que estão sempre na mesma, é esbofetear o "rame rame" do que me rodeia. Quando mudo dramaticamente qualquer coisa sinto que inaugurei um ciclo novo, uma nova era. Como se fosse uma brisa. Melhor, como se fosse uma pequena revolução.
E porque falo eu disto hoje? É que hoje mudei meia casa. Demorei dez horas. Esgotei-me. Mas, com a obra feita, sinto que mora aqui um tipo novo. Eu.


