7.3.08

de acordo com Vasco da Graça Moura


Escreve-se no PÚBLICO on line esta tarde que "O Presidente da República, Cavaco Silva, considerou hoje de manhã, no Rio de Janeiro, que a aprovação do acordo ortográfico “foi uma forma simbólica de o Governo se associar às comemorações do bicentenário” da chegada da corte portuguesa ao Brasil."
Há muitos, muitos anos que estou contra qualquer Acordo Ortográfico que implique cedências ao dictat dos números, seja por o Brasil ter mais falantes que Portugal, seja por se poder aumentar a mercantilidade das obras literárias portuguesas, seja porque alguém se lembrou de sugerir que no século XVI em Portugal se entoaria as palavras como os brasileiros fazem.
É que se a questão é de ordem quantitativa, então adopte-se o inglês como língua para evolução ortográfica tendencial. Seria muito mais útil e de sentido estratégico muito mais acertado.
O Brasil é um mito, um desafio à imaginação tal qual um pai rural que cria um filho que depois se faz grande e quase esquece o pai.
Os políticos portugueses vivem muito de um complexo de vaidade, ébrios de um historicismo saudosista no género Hermano Saraiva, que nos fala do país grande que fomos, das coisas grandes que fizemos, do orgulho insuperável pelo que "achámos".
Ora, o que se pede aos políticos é que construam hoje. E hoje é sempre futuro. Esta palavra que escrevo agora é o futuro daquela primeira que acima escrevi, há uns 3 minutos.
Aliás, em certa medida o presente é ficção, não existe.
O futuro de Portugal é que interessa, e esse é um desígnio de escalas sempre maiores que nós. Primeiro a Europa unida, depois o mundo global.
Portugal não precisa de se abrasileirar nos costumes e na expressão, na cultura ou na ideologia. Portugal tem de se europeizar. É aí que a nossa língua deve acolher as riquezas externas que a modernizem, que a tornem mais eficaz na leitura e na explicação dos novos códigos de linguagem predominantes (não somente culturais, também económicos e sociológicos) com que convivemos e a todos nos permitam melhor comunicar, a caminho dos espaços cada vez mais globais.
Em resumo, sou contra um Acordo Ortográfico que nos empurre passadisticamente para sul, quando o nosso destino é por agora sobretudo Norte, para mais tarde ser Norte e Sul. O mundo todo.