2.2.08

Marinho Pinto e a inteligência

Marinho Pinto é o Bastonário dos advogados, o interlocutor institucional de uma classe que agora bem se vê não é bem uma classe, antes um conjunto vasto de classes.
Primeiro Pires de Lima, depois José Miguel Júdice, ambos advogados de grandes causas e de grandes empresas, deram forma quase erudita à Ordem dos advogados, emprestando-lhe um cunho de quase casta.
Nos finais de 2007, Marinho Pinto, um advogado de cidade, ao serviço de toda a gente, trouxe a público uma agenda de causas justicialistas, ganhando a Ordem por ter encontrado apoio em tantos outros advogados de descamisados, eles próprios muitas vezes também descamisados.
Marinho Pinto representa um lado dos advogados que raramente emergia socialmente, mas que se aproxima daquela dimensão romântica, antiga, que se contradiz com as grandes sociedades de Lisboa e Porto.
O seu discurso desassombrado, evidentemente populista e gritado, é incómodo e pode trazer-lhe dissabores, pois os poderes e os interesses sabem bem como se movimentar.
A bem da sua razão e das razões das causas que com frequente justeza tem trazido a público, somente era necessário que Marinho Pinto encontrasse o registo certo, que lhe permitisse ser consistente e algo mais que meramente retórico e discursivo.
Arrisca-se Marinho Pinto a pouco mais conseguir que a atenção da rua, quando seria necessário que a sua coragem pudesse mobilizar as inteligências.