Comecei com o Diversus, em 2003.
Vieram depois tantos outros lugares, até que este Café se impôs como o sítio aglutinador de todas as palavras.
A vida do escriba mudou entretanto, muito.
Não há já espaço para a escrita de todos os dias, nem espírito para lutar por isso. E nenhum bloguismo resiste ao nada.
Outras formas de partilhar impressões e aspirações tentei, primeiro o Twitter, depois o Facebook.
Concluí que não gosto desses lugares narcísicos.
O Café Clube fecha pois portas, aqui e agora.
Talvez mais adiante volte à escrita em forma de blogue. Ou talvez não.
Mas algo está para mim muito claro: serei sempre leitor dos que melhor sentem e escrevem. Vivam esses.
Café Clube
7.5.10
4.5.10
a candidatura de Manuel Alegre
No anúncio formal da candidatura à presidência da República não vejo apenas o Alegre quixotesco e quase dandy de 2005. Vejo desta vez alguém capaz de ser mais amplo, mais abrangente nos públicos que conseguirá mobilizar.
Terá nenhuma hipótese contra o recandidato Cavaco, mas isso importa menos.
O que mais importa é que se defenda os valores certos, acima de todos os da democracia, do progresso e das liberdades. E nesse terreno Manuel Alegre é o candidato certo de que a Esquerda necessita. Quanto ao país, terá ainda de se ver até onde poderá uma candidatura de valores ir.
Terá nenhuma hipótese contra o recandidato Cavaco, mas isso importa menos.
O que mais importa é que se defenda os valores certos, acima de todos os da democracia, do progresso e das liberdades. E nesse terreno Manuel Alegre é o candidato certo de que a Esquerda necessita. Quanto ao país, terá ainda de se ver até onde poderá uma candidatura de valores ir.
3.5.10
Sócrates a brincar com as vítimas da crise
José Sócrates só pode estar a brincar com quem é vítima da crise, quando decidiu limitar o montante a atribuir dos subsídios de desemprego a 75% do último vencimento líquido auferido pelo desempregado.
Por que critério é esta decisão justa? Moral?
Por exemplo, se alguém tiver tido um vencimento declinante, por ter cessado ou diminuído, sem responsabilidade pessoal provada, a sua componente variável, é legítimo que ainda assim ali se estabeleça o valor de referência para a taxa dos 75%?
E porquê 75% e não 100%, ou 95, ou até 78? Apenas por ser uma cifra redonda?
Quando do debate parlamentar da semana passada, em resposta a perguntas certeiras de Francisco Louçã, Sócrates foi ao ponto de confundir vencimento bruto com vencimento líquido. Hoje, de facto, aplica-se uma taxa de 65% mas sobre o vencimento bruto ponderado, creio que aos últimos 12 meses de actividade do subsidiando.
Eu fico na dúvida: baralhou-se de facto Sócrates, não sabe, ou quis simplesmente manipular?
Por que critério é esta decisão justa? Moral?
Por exemplo, se alguém tiver tido um vencimento declinante, por ter cessado ou diminuído, sem responsabilidade pessoal provada, a sua componente variável, é legítimo que ainda assim ali se estabeleça o valor de referência para a taxa dos 75%?
E porquê 75% e não 100%, ou 95, ou até 78? Apenas por ser uma cifra redonda?
Quando do debate parlamentar da semana passada, em resposta a perguntas certeiras de Francisco Louçã, Sócrates foi ao ponto de confundir vencimento bruto com vencimento líquido. Hoje, de facto, aplica-se uma taxa de 65% mas sobre o vencimento bruto ponderado, creio que aos últimos 12 meses de actividade do subsidiando.
Eu fico na dúvida: baralhou-se de facto Sócrates, não sabe, ou quis simplesmente manipular?
5.4.10
um caso muito meu
O meu caso com pianos tem já perto de 40 anos.
Seria eu um puto de segundo ano (na altura, segunda classe) e ensinava alguns vizinhos a aprender melhor depois da escola o que nela não tinham conseguido.
O meu preferido de todos era o João Guerra. Não pelo João, nem pelas guloseimas que uma e outra vez recebia de sua mãe, mas pelo piano vertical. Nesse piano tocava, melhor, mexia eu todos os dias depois das "explicações" ao João.
Mais ou menos pela mesma altura a avó Teresa, pelos seus quase 80 anos, cozinhava ainda em casa dos Teixeira.
Os Teixeira eram uma família rica, muito rica, com casas, terras, caseiros, famílias inteiras de criados e até uma igreja na quinta lá perto de Setúbal.
Tinham os Teixeira também eles um piano vertical na sua casa de cidade, ali à Lapa, em Lisboa.
Depois de visitados os doces e os petiscos do dia da avó, com frequência as minhas deambulações pelo quase palácio acabavam no dedilhar fascinado das teclas brancas e pretas do lindíssimo piano dos Teixeira.
Passado este tempo todo remanesce o mesmo desejo e a mesma certeza de então: um dia vou ter um piano.
Seria eu um puto de segundo ano (na altura, segunda classe) e ensinava alguns vizinhos a aprender melhor depois da escola o que nela não tinham conseguido.
O meu preferido de todos era o João Guerra. Não pelo João, nem pelas guloseimas que uma e outra vez recebia de sua mãe, mas pelo piano vertical. Nesse piano tocava, melhor, mexia eu todos os dias depois das "explicações" ao João.
Mais ou menos pela mesma altura a avó Teresa, pelos seus quase 80 anos, cozinhava ainda em casa dos Teixeira.
Os Teixeira eram uma família rica, muito rica, com casas, terras, caseiros, famílias inteiras de criados e até uma igreja na quinta lá perto de Setúbal.
Tinham os Teixeira também eles um piano vertical na sua casa de cidade, ali à Lapa, em Lisboa.
Depois de visitados os doces e os petiscos do dia da avó, com frequência as minhas deambulações pelo quase palácio acabavam no dedilhar fascinado das teclas brancas e pretas do lindíssimo piano dos Teixeira.
Passado este tempo todo remanesce o mesmo desejo e a mesma certeza de então: um dia vou ter um piano.
4.4.10
as tuas, as minhas e todas as outras corrupçõezitas
José Sócrates e, por arrastamento, o PS, bem como todos os cavaquistas que gravitaram em torno do BPN e do BPP, e ainda os portistas e demais que influenciaram decisões de submarinos, reservas ecológicas, casinos e companhia, mais os seus supostos apaniguados do BES, toda esta gente anda nas bocas de meio mundo como suspeitos de terem metido a mão na massa, ou ao menos encaminhado a massa em que meteram a mão para os seus partidos.
O panorama que se vai desenhando é o de um país de corruptos. E lá vem a célebre frase de Cavaco Silva um dia no parlamento, dirigindo-se ao líder da oposição Guterres, salvo erro em 1994: "Portugal não é um país de corruptos".
Exagerava então o professor, pois está visto que Portugal é mesmo o contrário do que Aníbal pensava.
Só que a corrupção pode ter hoje outros nomes, mais "aggiornatos".
"Desculpe, eu não fui corrompido. Prestei sim serviços de consultadoria. Até tenho contrato"
É que se falamos de consultadoria ficamos logo todos mais descansados.
O António Mexia da EDP, o Ferreira de Oliveira da Galp e o Zeinal Bava da PT ganharam cada um mais de 1 milhão de euros em 2009.
E eu nem sei já bem o que chamar a "honorários" destes. Será esta outra forma de corrupção? A lei diz que não. Já a moral...
O panorama que se vai desenhando é o de um país de corruptos. E lá vem a célebre frase de Cavaco Silva um dia no parlamento, dirigindo-se ao líder da oposição Guterres, salvo erro em 1994: "Portugal não é um país de corruptos".
Exagerava então o professor, pois está visto que Portugal é mesmo o contrário do que Aníbal pensava.
Só que a corrupção pode ter hoje outros nomes, mais "aggiornatos".
"Desculpe, eu não fui corrompido. Prestei sim serviços de consultadoria. Até tenho contrato"
É que se falamos de consultadoria ficamos logo todos mais descansados.
O António Mexia da EDP, o Ferreira de Oliveira da Galp e o Zeinal Bava da PT ganharam cada um mais de 1 milhão de euros em 2009.
E eu nem sei já bem o que chamar a "honorários" destes. Será esta outra forma de corrupção? A lei diz que não. Já a moral...
a morte de uma era na África do Sul
Goste-se ou não da ideia, há mesmo homens que o mundo bem dispensaria que tivessem nascido. Eugene Terreblanche era um desses.
Eugene não era um político qualquer. Ele personificou sempre o ódio racial que durante décadas se institucionalizou na África do Sul, continuando o apartheid enquanto doutrina já depois do seu óbito político.
Pois parece que ontem 2 seus empregados se cansaram dos salários em atraso na sua quinta e ditaram o fim físico deste homem de ideias tão anacrónicas.
Podem agora os "afrikaner" (seus correlegionários) retaliar, pode o processo democrático soluçar, mas algo é certo: com a morte de Terreblanche há um símbolo das trevas que desaparece da sociedade sul-africana.
Quem conseguirá chorar esta morte?
26.3.10
um PSD de passagem
Hoje o PSD está a escolher o novo líder. Não é preciso ser politólogo para prever que será Pedro Passos Coelho a prevalecer.
Seria o mesmo com os demais candidatos: Passos Coelho vai estar em funções por pouco tempo e acabará dilacerado pela máquina trituradora que é o PSD.
E porquê?
Esta é uma previsão sem grande risco, que Rui Rio chegará mais tarde, quando o desgaste for menor, digerindo sem grande esforço o líder fraco que hoje o partido laranja empossará.
Seria o mesmo com os demais candidatos: Passos Coelho vai estar em funções por pouco tempo e acabará dilacerado pela máquina trituradora que é o PSD.
E porquê?
Esta é uma previsão sem grande risco, que Rui Rio chegará mais tarde, quando o desgaste for menor, digerindo sem grande esforço o líder fraco que hoje o partido laranja empossará.
16.3.10
ainda o PSD e o futuro
Se há linguagem com sentido de futuro entre os candidatos a lider no PSD essa é de Pedro Passos Coelho. Ou melhor, digamos que é uma linguagenzita com algum futuro.
Não que baste a um partido com vocação de governo, mas, atendendo ao grau de qualidade política quase zero com que estas disputas no topo partidário hoje se fazem, o estar moderado e menos passadista de Coelho chega até a parecer uma lufada de ar fresco. Mas não é. É apenas o menor dos males por parte de um medíocre candidato a lider e paupérrimo candidato a primeiro-ministro.
É que o país merece e precisa de muito melhor por parte dos grandes partidos para conduzirem os seus destinos.
Não que baste a um partido com vocação de governo, mas, atendendo ao grau de qualidade política quase zero com que estas disputas no topo partidário hoje se fazem, o estar moderado e menos passadista de Coelho chega até a parecer uma lufada de ar fresco. Mas não é. É apenas o menor dos males por parte de um medíocre candidato a lider e paupérrimo candidato a primeiro-ministro.
É que o país merece e precisa de muito melhor por parte dos grandes partidos para conduzirem os seus destinos.
13.3.10
o púlpito errado
Não pude deixar de sentir que Manuela Ferreira Leite, ao discursar no congresso do PSD, parecia estar no sítio errado. A senhora que me desculpe mas ao falar naquele registo desesperançoso e sombrio, pareceu-me mesmo estar a fazer uma prédica de púlpito de paróquia, com leituras seleccionadas das Escrituras.
o apocalipse de Portugal segundo Manuela Ferreira Leite, na hora do adeus
Muito significativo da sua inaptidão para a função de líder, Manuela Ferreira Leite iniciou o seu discurso de hoje, no congresso em que sai, com uma releitura de um longo extracto do discurso que fizera em Junho de 2008.
Das suas palavras tudo o que se ouve são diagnósticos, alertas, avisos, todos feitos no passado, são argumentos autojustificativos do caminho feito. Vejam como estive bem, parece querer dizer. E na verdade todos sabem que não esteve.
Manuela mais não fez nestes dois anos do que anunciar e chorar o apocalipse de Portugal.
Como alguém bem escreveu hoje, o PSD não precisa, manifestamente, de um novo presidente, mas sim de um novo líder.
Das suas palavras tudo o que se ouve são diagnósticos, alertas, avisos, todos feitos no passado, são argumentos autojustificativos do caminho feito. Vejam como estive bem, parece querer dizer. E na verdade todos sabem que não esteve.
Manuela mais não fez nestes dois anos do que anunciar e chorar o apocalipse de Portugal.
Como alguém bem escreveu hoje, o PSD não precisa, manifestamente, de um novo presidente, mas sim de um novo líder.
para que serve o líder (no PSD)?
O líder dá a cara em todos os momentos.
O líder dá a cara sobretudo quando tudo corre mal e é preciso dar uma chapada na ordem das coisas.
O líder assume as mensagens positivas que conduzem à mobilização para os seus objectivos e que conduzam ao seu atingimento.
O líder trabalha com todos, muito mais que trabalhar contra quem quer que seja.
Mas o líder identifica e enfrenta os adversários que se interpõem no caminho dos seus objectivos.
O líder vela por que todos os caminhos definidos sejam percorridos, mas compreende e implementa ajustamentos ou até inversões, quando avaliado necessário.
O líder deve definir objectivos de monta variada: os pequenos objectivos instrumentais, os médios objectivos tácticos, os grandes objectivos estratégicos.
O líder anima mais que do que cria. Porque ninguém sabe de tudo, faz-se rodear de conselhos, e varia quantas vezes for necessário a origem dos conselhos.
O líder procura aparecer como um entre mais, embora não deixe dúvidas que a sua decisão é a última.
Um líder tem a importância de um maestro numa orquestra sinfónica: muitas vezes não se percebe o que faz, mas, se se der um pouco mais de atenção, nos bastidores foi ele que imprimiu o formato, a coesão, e é muito dele a culpa pelo resultado.
(se o Paulo Teixeira Pinto pode elaborar sobre o tema, porque não poderia eu também?)
O líder dá a cara sobretudo quando tudo corre mal e é preciso dar uma chapada na ordem das coisas.
O líder assume as mensagens positivas que conduzem à mobilização para os seus objectivos e que conduzam ao seu atingimento.
O líder trabalha com todos, muito mais que trabalhar contra quem quer que seja.
Mas o líder identifica e enfrenta os adversários que se interpõem no caminho dos seus objectivos.
O líder vela por que todos os caminhos definidos sejam percorridos, mas compreende e implementa ajustamentos ou até inversões, quando avaliado necessário.
O líder deve definir objectivos de monta variada: os pequenos objectivos instrumentais, os médios objectivos tácticos, os grandes objectivos estratégicos.
O líder anima mais que do que cria. Porque ninguém sabe de tudo, faz-se rodear de conselhos, e varia quantas vezes for necessário a origem dos conselhos.
O líder procura aparecer como um entre mais, embora não deixe dúvidas que a sua decisão é a última.
Um líder tem a importância de um maestro numa orquestra sinfónica: muitas vezes não se percebe o que faz, mas, se se der um pouco mais de atenção, nos bastidores foi ele que imprimiu o formato, a coesão, e é muito dele a culpa pelo resultado.
(se o Paulo Teixeira Pinto pode elaborar sobre o tema, porque não poderia eu também?)
28.2.10
a propósito do prazo curtinho das nossas coisas
Grassa no país, e não é apenas hoje, um estar de vistas curtinhas, que se lamenta e dramatiza os défices e as dívidas (pública e externa), as inflações, as taxas de desemprego e tantas outras métricas que todos os dias situação e oposição vão brandindo.
Nos velhos conceitos aprendidos no liceu todos lembramos o significado da conjuntura. Pois todos os lamentos e acusações parece-me situarem-se obsessivamente na conjuntura, como se mais não se devesse fazer senão apagar fogos.
Mas afinal o que origina o incêndio global e permanente de onde derivam os fogos que uns querem apagar e outros dizem que quase não existem?
Que mal ou males de fundo, constantes, não resolvidos, andam por aí metidos na gente e nas coisas portuguesas?
Será apenas a periferia geográfica?
É antes um insuperável mal de espírito, de onde derivariam as tão míticas saudades, ou o fado, como se nos fundadores do país tivesse sido instilado um vírus incapacitante?
Claro que há o Eduardo Lourenço, o Adriano Moreira, o Gonçalo Ribeiro Telles e outros que, responsavelmente, se vão encarregando de deslocar a conversa para a compreensão das coisas longas.
Já no país que todos os dias se mexe em nosso nome, os Sócrates e as Manuelas Leites que temos, é a espuma das circunstâncias, seja ela rosa ou cinzenta, é por aí que sempre parece preferirem ir.
Para não ser como os que acuso, deixo uma nota para reflexão quanto a um dos males de ciclo longo que nos afectam: a resultante é que nós, sobretudo os portugueses urbanos, de classe média, moderadamente letrados, temos dificuldades imensas em trabalhar no duro continuamente, todo o dia, todos os dias, tipo pegar numa missão e levá-la adiante com grande foco, máxima concentração, pouca conversa e muita acção e reflexão.
O português médio não cumpre horários nem objectivos no tempo, dispersa-se quando trabalha, deriva para a conversa e o cafézito sempre que tem assunto, disseca minudências e coscovilha incessantemente.
E o que causará esta incapacidade para a boa produtividade, que considero tão atávica do português médio? Dou duas pistas como hipóteses: a cultura católica, muito impregnada e resultante numa desculpante e permissiva cultura de trabalho e a muito tardia e diminuta eclosão da cultura operária em Portugal.
Em grande medida, Portugal passou de país rural, que era até final dos anos de 1960, para país de muitos serviços, designadamente de muito retalho.
Por outras palavras, passou directamente do quase analfabeto (mais de 40% de analfabetismo há 40 anos) e ignorante país das couves para o país das conversas.
A débil eclosão industrial originou a permanência de ciclos de trabalho pouco sistemáticos e quase ignorou a importância dos ciclos repetitivos, típicos das indústrias do centro e norte da Europa, e prejudicou a emergência de sistemas organizativos em equipa, com o que implicavam de trabalho metódico, interligado, colectivo, exigente e inescapável.
E como resolver este mal permanente, perguntará alguém? Pelo sistema de ensino, em primeiro lugar. A cultura do trabalho intensivo e feito no tempo devido, dos deveres a que não se possa fugir, a cultura da concentração máxima, a consciência do dever face ao trabalho proposto, tudo isso deve começar a ser trabalhado na escola, desde o início.
Digo, por isto, que, a bem do progresso e do bem estar geral, o país não precisa de uma reforma do ensino, precisa de uma grande e ousada revolução, capaz de por aqui instilar, impregnar mesmo, nas crianças a consciência da necessidade cultural básica do que os ingleses chamam de "hard-working".
Nos velhos conceitos aprendidos no liceu todos lembramos o significado da conjuntura. Pois todos os lamentos e acusações parece-me situarem-se obsessivamente na conjuntura, como se mais não se devesse fazer senão apagar fogos.
Mas afinal o que origina o incêndio global e permanente de onde derivam os fogos que uns querem apagar e outros dizem que quase não existem?
Que mal ou males de fundo, constantes, não resolvidos, andam por aí metidos na gente e nas coisas portuguesas?
Será apenas a periferia geográfica?
É antes um insuperável mal de espírito, de onde derivariam as tão míticas saudades, ou o fado, como se nos fundadores do país tivesse sido instilado um vírus incapacitante?
Claro que há o Eduardo Lourenço, o Adriano Moreira, o Gonçalo Ribeiro Telles e outros que, responsavelmente, se vão encarregando de deslocar a conversa para a compreensão das coisas longas.
Já no país que todos os dias se mexe em nosso nome, os Sócrates e as Manuelas Leites que temos, é a espuma das circunstâncias, seja ela rosa ou cinzenta, é por aí que sempre parece preferirem ir.
Para não ser como os que acuso, deixo uma nota para reflexão quanto a um dos males de ciclo longo que nos afectam: a resultante é que nós, sobretudo os portugueses urbanos, de classe média, moderadamente letrados, temos dificuldades imensas em trabalhar no duro continuamente, todo o dia, todos os dias, tipo pegar numa missão e levá-la adiante com grande foco, máxima concentração, pouca conversa e muita acção e reflexão.
O português médio não cumpre horários nem objectivos no tempo, dispersa-se quando trabalha, deriva para a conversa e o cafézito sempre que tem assunto, disseca minudências e coscovilha incessantemente.
E o que causará esta incapacidade para a boa produtividade, que considero tão atávica do português médio? Dou duas pistas como hipóteses: a cultura católica, muito impregnada e resultante numa desculpante e permissiva cultura de trabalho e a muito tardia e diminuta eclosão da cultura operária em Portugal.
Em grande medida, Portugal passou de país rural, que era até final dos anos de 1960, para país de muitos serviços, designadamente de muito retalho.
Por outras palavras, passou directamente do quase analfabeto (mais de 40% de analfabetismo há 40 anos) e ignorante país das couves para o país das conversas.
A débil eclosão industrial originou a permanência de ciclos de trabalho pouco sistemáticos e quase ignorou a importância dos ciclos repetitivos, típicos das indústrias do centro e norte da Europa, e prejudicou a emergência de sistemas organizativos em equipa, com o que implicavam de trabalho metódico, interligado, colectivo, exigente e inescapável.
E como resolver este mal permanente, perguntará alguém? Pelo sistema de ensino, em primeiro lugar. A cultura do trabalho intensivo e feito no tempo devido, dos deveres a que não se possa fugir, a cultura da concentração máxima, a consciência do dever face ao trabalho proposto, tudo isso deve começar a ser trabalhado na escola, desde o início.
Digo, por isto, que, a bem do progresso e do bem estar geral, o país não precisa de uma reforma do ensino, precisa de uma grande e ousada revolução, capaz de por aqui instilar, impregnar mesmo, nas crianças a consciência da necessidade cultural básica do que os ingleses chamam de "hard-working".
27.2.10
a propósito da tragédia madeirense
Acompanho muito o pensamento de António Lobo Xavier quando, na "Quadratura do Círculo" de anteontem, se referia à hipocrisia dos que "enterram o machado de guerra", Alberto João Jardim e o PS.
Em causa está o diploma sobre as finanças regionais, cuja constitucionalidade o PS questionava, dúvidas que agora parece ter posto de parte por causa da tragédia madeirense.
Ora se há inconstitucionalidade por que razão se deve desistir de indagá-lo?
Também tem razão Lobo Xavier quando põe em causa o unanimismo que parece configurado quanto à excepcionalidade da cooperação entre governos nacional e regional, e destes para com as populações.
De facto, para quê tantos elogios e exaltações quando a ambos mais não compete do que velar pelo bem estar público? Mais não fazem que exercer as suas competências e deveres.
Quanto a balanços, lá chegaremos.
E que nesse balanço se inclua um dia, sem esquecimentos, que responsabilidades têm o governo regional e o nacional por a catástrofe ter atingido tamanhas consequências, por falta de cumprimento anterior das suas obrigações, eis a minha esperança.
Em causa está o diploma sobre as finanças regionais, cuja constitucionalidade o PS questionava, dúvidas que agora parece ter posto de parte por causa da tragédia madeirense.
Ora se há inconstitucionalidade por que razão se deve desistir de indagá-lo?
Também tem razão Lobo Xavier quando põe em causa o unanimismo que parece configurado quanto à excepcionalidade da cooperação entre governos nacional e regional, e destes para com as populações.
De facto, para quê tantos elogios e exaltações quando a ambos mais não compete do que velar pelo bem estar público? Mais não fazem que exercer as suas competências e deveres.
Quanto a balanços, lá chegaremos.
E que nesse balanço se inclua um dia, sem esquecimentos, que responsabilidades têm o governo regional e o nacional por a catástrofe ter atingido tamanhas consequências, por falta de cumprimento anterior das suas obrigações, eis a minha esperança.
a verdade nas audições parlamentares
Para se procurar dilucidar onde está a verdade das alegadas tendências controladoras de José Sócrates e do Governo, o Parlamento resolveu constituir mais uma comissão.
Procuraram os deputados voltar a onde já foram felizes (comissão BPN).
A percepção mais óbvia depois de uma semana de "convidados" em desfile é que, com a excepção do depoimento de Henrique Monteiro, ou a verdade foi assumidamente escondida atrás de segredos, profissionais ou deontológicos, ou então ""a montanha pariu um rato, no sentido de que se ouviu pouco mais que opiniões, interpretações, estados de alma.
Nem pode haver surpresas por aí além, na vida pública a verdade das palavras depende sempre dos interesses, da ocasião e do próprio, raramente do interesse geral, aquele que conotamos com a verdade que a todos interessa.
Procuraram os deputados voltar a onde já foram felizes (comissão BPN).
A percepção mais óbvia depois de uma semana de "convidados" em desfile é que, com a excepção do depoimento de Henrique Monteiro, ou a verdade foi assumidamente escondida atrás de segredos, profissionais ou deontológicos, ou então ""a montanha pariu um rato, no sentido de que se ouviu pouco mais que opiniões, interpretações, estados de alma.
Nem pode haver surpresas por aí além, na vida pública a verdade das palavras depende sempre dos interesses, da ocasião e do próprio, raramente do interesse geral, aquele que conotamos com a verdade que a todos interessa.
sinais da nossa democracia no Afeganistão
"U.S. Army Specialist Jerrod Carr from Lakeland, Florida and with Delta Company 4th Brigade combat team, 2-508, 82nd parachute infantry regiment, stands guard next to detained Afghan men in the Arghandab valley in Kandahar province February 26, 2010."
foto REUTERS/Baz Ratner
25.2.10
confiança em tempo de guerra
"A Palestinian man smokes a cigarette beside Israeli soldiers after minor clashes with Palestinian stone-throwers in the West Bank city of Hebron February 23, 2010."
foto REUTERS/Ammar Awad
24.2.10
a credibilidade e o Henrique Monteiro
Henrique Monteiro, director do EXPRESSO, afirmou hoje na Assembleia da República que recebeu de José Sócrates a única pressão que alguma vez teve tendente a evitar uma publicação de notícia.
No caso era a iminente publicação da notícia da licenciatura do hoje primeiro-ministro.
O Henrique Monteiro não é um homem qualquer. Não se lhe conhece ódios particulares, não tem perfil manipulável, ao sabor de uma qualquer estratégia anti-PS, nem tão pouco se vê no Henrique um ressentido jornalista, procurando com uma mentira vingar desfeitas antigas ou desconsiderações.
Para azar de José Sócrates, o Henrique Monteiro é um jornalista muito credível. A sua afirmação tem o efeito de um estalo tremendo na credibilidade isso sim do primeiro-ministro.
Já antes José Manuel Fernandes o referira, mas podia levar-se isso em conta de um certo desamor do ex-director do PÚBLICO.
De Mário Crespo e das suas referências de "ouvir dizer" coniderara-se serem exageradas, num registo já muitas vezes usado na escrita opinativa do pivot da SIC Notícias, e por isso diminuidor da sua credibilidade.
Talvez o povo em geral não atribua a esta referência do director do EXPRESSO uma importância particular. Já eu atribuo. José Sócrates tem de facto uma incorrigível tendência para pôr em causa o normal uso da liberdade de informação.
Mais uma e agora muito dura notícia esta, à atenção dos melhores democratas do PS.
21.2.10
Sócrates e a missão de um partido social-democrata moderno
Seria bom que fosse para todos claro, a começar pelo próprio PS, que o país não está condenado a ter Sócrates por primeiro-ministro.
Como tantas vezes sucede em empresas, a bem da credibilidade e da eficácia das organizações (e um Governo é uma organização como outras), não seria de excluir que ao país e ao PS fosse benéfico que houvesse mudança de primeiro-ministro.
O grande problema é que isso mesmo já se poderia dizer em Setembro, quando o país votou maioritariamente no PS e em José Sócrates.
Dos 10 "casos" obscuros a que ligamos e os media ligam o lider socialista, uns 9 já existiam então e o país não quis saber. Retiro daqui que Sócrates é inamovível só porque surgiu mais um "caso"? Não. Concluo apenas que é patético fazê-lo e que cabe somente ao PS decidir se a continuidade do actual primeiro-ministro, nas actuais condições - mesmo que se trate de uma campanha o tal rol de 10 "casos" - em funções não prejudica mais do que ajuda aquilo que ao PS mais deverá interessar, que é o cumprimento da sua missão e da sua agenda de partido social-democrata europeu do século XXI.
E eu acho que sim, e que, apenas por isso, Sócrates deveria sair.
Como tantas vezes sucede em empresas, a bem da credibilidade e da eficácia das organizações (e um Governo é uma organização como outras), não seria de excluir que ao país e ao PS fosse benéfico que houvesse mudança de primeiro-ministro.
O grande problema é que isso mesmo já se poderia dizer em Setembro, quando o país votou maioritariamente no PS e em José Sócrates.
Dos 10 "casos" obscuros a que ligamos e os media ligam o lider socialista, uns 9 já existiam então e o país não quis saber. Retiro daqui que Sócrates é inamovível só porque surgiu mais um "caso"? Não. Concluo apenas que é patético fazê-lo e que cabe somente ao PS decidir se a continuidade do actual primeiro-ministro, nas actuais condições - mesmo que se trate de uma campanha o tal rol de 10 "casos" - em funções não prejudica mais do que ajuda aquilo que ao PS mais deverá interessar, que é o cumprimento da sua missão e da sua agenda de partido social-democrata europeu do século XXI.
E eu acho que sim, e que, apenas por isso, Sócrates deveria sair.
a tragédia de uma terra com azares a mais
Não é só azar o que acontece na Madeira, mesmo quando se regista já 40 mortos. Diz o "PÚBLICO" hoje que se a Madeira tivesse um radar metereológico poderia ter prevenido alguns dos efeitos, evitado o efeito de total surpresa, quem sabe, digo, se evitado alguns desses mortos e feridos.
A mesma Madeira dos carnavais, réveillons e futebóis, prenhe de estradas e tunéis de alcatrão ainda fresquinho, essa terra de Jardim foi apanhada pela tempestade tão desprevenida e impotente como sucederia 200 anos atrás.
Onde está afinal a Madeira de sucesso, a florida terra dos muitos milhões bebidos no orçamento de estado, na Europa ou nos impostos dos madeirenses?
A mesma Madeira dos carnavais, réveillons e futebóis, prenhe de estradas e tunéis de alcatrão ainda fresquinho, essa terra de Jardim foi apanhada pela tempestade tão desprevenida e impotente como sucederia 200 anos atrás.
Onde está afinal a Madeira de sucesso, a florida terra dos muitos milhões bebidos no orçamento de estado, na Europa ou nos impostos dos madeirenses?
mais um regresso
De vez em quando o Café hiberna. Depois regressa sempre. Nada existe para sempre, nem sequer a inexistência.
7.2.10
orientalismos na periferia
Na pequena papelaria de São Marcos o mais sueco (de porte e perfil) dos locais ouvia ontem música árabe. Perguntei-lhe se era disco se era rádio e lá saiu do bolso a capa do precioso cd, com a lista de canções repleta de pequeninas peças da joalharia musical de paragens não europeias.
Mas quem é que se referiu a São Marcos como a periferia pobre da cosmopolita Lisboa?
Mas quem é que se referiu a São Marcos como a periferia pobre da cosmopolita Lisboa?
3.2.10
desta vez estou com o Mário Crespo
O Mário Crespo é imoderado. É.
O Mário é algo "prima donna". É.
O Mário é um bom profissional da comunicação televisiva, inteligente, culto, preparado, independente. É de facto tudo isso. E tudo isso não é pouco.
Por tudo isso, não embarco em estratégias de ataque à sua independência, ao seu verbo corrosivo, mesmo aos seus dislates e exageros de "virgem ofendida". Defendo o direito democrático ao disparate e repudio a censura de que foi alvo, gesto mais próprio de Venezuelas e Angolas que bem conhecemos.
Caberia sim a Sócrates, Silva Pereira e Jorge Lacão estarem em condições de poderem fazer o contraditório face ao que sobre eles Crespo afirmou saber, invocando várias fontes.
E, por sinal, duas das fontes até já estão bem identificadas.
E, a confirmar-se que Sócrates disse de Crespo o que disse, a coisa é mesmo feia e confirmativa de uma tendência "chávista" muito perigosa.
O Mário é algo "prima donna". É.
O Mário é um bom profissional da comunicação televisiva, inteligente, culto, preparado, independente. É de facto tudo isso. E tudo isso não é pouco.
Por tudo isso, não embarco em estratégias de ataque à sua independência, ao seu verbo corrosivo, mesmo aos seus dislates e exageros de "virgem ofendida". Defendo o direito democrático ao disparate e repudio a censura de que foi alvo, gesto mais próprio de Venezuelas e Angolas que bem conhecemos.
Caberia sim a Sócrates, Silva Pereira e Jorge Lacão estarem em condições de poderem fazer o contraditório face ao que sobre eles Crespo afirmou saber, invocando várias fontes.
E, por sinal, duas das fontes até já estão bem identificadas.
E, a confirmar-se que Sócrates disse de Crespo o que disse, a coisa é mesmo feia e confirmativa de uma tendência "chávista" muito perigosa.
31.1.10
Orçamentos grátis, segundo o Valupi, no Aspirina B
"Quando for eu a mandar nesta merda toda, obrigo os partidos da oposição a apresentarem os seus orçamentos alternativos. Adorava ver o que aquelas inteligências elaboravam no fogo da responsabilidade.
Como é que o BE e o PCP fariam a divisão dos recursos, sabendo-se que iriam aumentar e dar subsídios de desemprego a qualquer marmanjo sem vocação para o trabalho, proibiriam os despedimentos, prenderiam os patrões, fariam chegar os cuidados de saúde ao cu do mundo e transformariam as pensões de miséria em pensões de fartura? Qual seria o défice resultante das propostas eleitorais desses partidos?
E como é que o PSD e CDS diminuiriam o défice, sabendo que também pretendem baixar impostos, acabar com taxas, diminuir os pagamentos ao Estado? Como é que eles fariam o emagrecimento da Função Pública, onde e quanto cortariam? Como é que diminuiriam o desemprego se o actual desemprego é causado por factores externos?
Venham daí esses orçamentos. Não custa nada."
hoje, no Aspirina B
Como é que o BE e o PCP fariam a divisão dos recursos, sabendo-se que iriam aumentar e dar subsídios de desemprego a qualquer marmanjo sem vocação para o trabalho, proibiriam os despedimentos, prenderiam os patrões, fariam chegar os cuidados de saúde ao cu do mundo e transformariam as pensões de miséria em pensões de fartura? Qual seria o défice resultante das propostas eleitorais desses partidos?
E como é que o PSD e CDS diminuiriam o défice, sabendo que também pretendem baixar impostos, acabar com taxas, diminuir os pagamentos ao Estado? Como é que eles fariam o emagrecimento da Função Pública, onde e quanto cortariam? Como é que diminuiriam o desemprego se o actual desemprego é causado por factores externos?
Venham daí esses orçamentos. Não custa nada."
hoje, no Aspirina B
30.1.10
sinais difíceis da política de hoje
Hugo Chávez dirigiu-se a Barack Obama como "chico". Pedro Mexia, no "Governo Sombra" (da TSF), chamou a atenção para a tradução literal para o inglês. "Boy" tem no sul dos Estados Unidos óbvias conotações seculares. Nada simpáticas.
Nada simpático é ouvir o parco Luis Marques Mendes acusar o PSD, o seu partido, de falta de "juizinho". Isto agora que um seu delfim, Passos Coelho, se faz ao caminho para tomar o comando. Esta solidariedade laranja já teve dias mais auspiciosos.
Cavaco Silva foi acusado por Belmiro de Azevedo de ditador. Não se percebeu bem que pequena birra move agora o homem dos supermercados, por muito que se desgoste do político algarvio.
O mesmo "senhor Silva" convocou o Conselho de Estado para ouvir sobre as incidências na governação da actual situação de "maioria relativa". Os factos de as eleições terem ocorrido há menos de 6 meses, de o Governo estar legitimamente empossado e até estar iminente a aprovação do Orçamento de Estado em nada parece terem contribuido para esfriar a pulsão oposicionista do senhor de Belém. Ele há atavismos complicados de despir.
Nada simpático é ouvir o parco Luis Marques Mendes acusar o PSD, o seu partido, de falta de "juizinho". Isto agora que um seu delfim, Passos Coelho, se faz ao caminho para tomar o comando. Esta solidariedade laranja já teve dias mais auspiciosos.
Cavaco Silva foi acusado por Belmiro de Azevedo de ditador. Não se percebeu bem que pequena birra move agora o homem dos supermercados, por muito que se desgoste do político algarvio.
O mesmo "senhor Silva" convocou o Conselho de Estado para ouvir sobre as incidências na governação da actual situação de "maioria relativa". Os factos de as eleições terem ocorrido há menos de 6 meses, de o Governo estar legitimamente empossado e até estar iminente a aprovação do Orçamento de Estado em nada parece terem contribuido para esfriar a pulsão oposicionista do senhor de Belém. Ele há atavismos complicados de despir.
29.1.10
no olhar de uma criança
"Children cry as the crowd pushes during a food distribution in Cite Soleil, Port-au-Prince, January 28, 2010."
foto REUTERS/Eduardo Munoz
27.1.10
sobreviver no Haiti
O Haiti lá vai saindo das preocupações de todos os dias, encurtando-se as reportagens televisivas, tornando-se mais anónimo e sombrio o sofrimento de milhões. A ONU estima em 10 anos o tempo necessário para que a ajuda estrangeira permaneça. O que ninguém sabe é quantos milhares de vidas se perderão até lá. E não se perde a vida apenas porque se morre, ou porque a parede caiu. A vida é muito menos material que isso.
22.1.10
13.1.10
o homem do frango
Na fila do frango grelhado um homem foi sinalizado como se fosse mulher, por outro homem. "Aquela senhora ali...". O homem com sexo mudado riu nervosamente e quando teve de falar "eu quero um frango com picante" fê-lo com voz quase gutural, como se assim não pudessem subsistir dúvidas.
6.1.10
migrantes na China
"Migrant workers wait to buy their lunch through the windows of a canteen at a construction site in Changzhi, Shanxi province, China, January 5, 2010."
foto REUTERS/Stringer
4.1.10
hoje é um dia triste, muito triste
Porque soube agora que morreu na 6ª fª Lhasa de Sela, aos 37 anos. Que filha da puta de vida esta que leva a morte a quem tanto merecia viver.
O concerto de Lhasa na Aula Magna, em Dezembro de 2004, foi dos melhores concertos da minha vida.
O concerto de Lhasa na Aula Magna, em Dezembro de 2004, foi dos melhores concertos da minha vida.
3.1.10
a lista dos melhores 10 filmes de 2009 dos "Cahiers du Cinéma"
1. Les Herbes folles, Alain Resnais
2. Vincere, Marco Bellochio
3. Inglorious Bastards, Quentin Tarantino
4. Gran Torino, Clint Eastwood
5. Singularités d’une jeune fille blonde, Manoel de Oliveira
6. Tetro, de Francis Ford Coppola
7. Démineurs, Kathryn Bigelow
8. Le Roi de l’évasion, Alain Guiraudie
9. Tokyo Sonata, Kiyoshi Kurosawa
10. Hadewijch, Bruno Dumont
2. Vincere, Marco Bellochio
3. Inglorious Bastards, Quentin Tarantino
4. Gran Torino, Clint Eastwood
5. Singularités d’une jeune fille blonde, Manoel de Oliveira
6. Tetro, de Francis Ford Coppola
7. Démineurs, Kathryn Bigelow
8. Le Roi de l’évasion, Alain Guiraudie
9. Tokyo Sonata, Kiyoshi Kurosawa
10. Hadewijch, Bruno Dumont
2.1.10
notícias da grande tragédia de África
O que causa principalmente a fome, a guerra, o atraso, a iliteracia, a doença em África? Se pensou em corrupção acertou.
Em África, estima-se que mais de 1 em cada 4 euros de riqueza produzida é desviado para os circuitos da corrupção.
São mecanismos montados e actuantes de cima abaixo das sociedades, do governo central aos mais humildes funcionários. Tudo se compra ao alcance de uma tantas vezes pequena corrupçãozeca: uma avaliação escolar, o direito de uma criança em assistir a uma aula, a luz com que se vive, o próprio salário, se se é funcionário público.
Dir-se-á que não é assim em toda a África negra. Não será. Mas, a fazer fé em tantos indicadores que por aí pululam, andará muito perto disso. E só a ocorrência da dúvida já intimida suficientemente.
Em África, estima-se que mais de 1 em cada 4 euros de riqueza produzida é desviado para os circuitos da corrupção.
São mecanismos montados e actuantes de cima abaixo das sociedades, do governo central aos mais humildes funcionários. Tudo se compra ao alcance de uma tantas vezes pequena corrupçãozeca: uma avaliação escolar, o direito de uma criança em assistir a uma aula, a luz com que se vive, o próprio salário, se se é funcionário público.
Dir-se-á que não é assim em toda a África negra. Não será. Mas, a fazer fé em tantos indicadores que por aí pululam, andará muito perto disso. E só a ocorrência da dúvida já intimida suficientemente.
o nosso amigo Aníbal
Aqui o Café Clube tem uma relação muito especial com Aníbal Cavaco Silva, o presidente.
Pois ontem Aníbal voltou a falar. E que disse? No essencial, que não se vê papel algum para combater a crise e ajudar ao progresso dos portugueses e dos demais que cá vivem.
É o mesmo homem de sempre e é seu um dos maiores predicados que alguém pode ter, o da previsibilidade.
Nada é nunca com Cavaco Silva, havendo problemas. Excepto as palavras, sempre muito parecidas umas com as outras, quase sempre mais factor de desajuda que de incentivo.
Faria o senhor um favor à sua família e ao país se deixasse o lugar a outro daqui a 1 ano. Mas não. Aníbal tem outra característica marcante, a soberba. Julga-se sempre melhor do que é verdadeiramente.
Pois ontem Aníbal voltou a falar. E que disse? No essencial, que não se vê papel algum para combater a crise e ajudar ao progresso dos portugueses e dos demais que cá vivem.
É o mesmo homem de sempre e é seu um dos maiores predicados que alguém pode ter, o da previsibilidade.
Nada é nunca com Cavaco Silva, havendo problemas. Excepto as palavras, sempre muito parecidas umas com as outras, quase sempre mais factor de desajuda que de incentivo.
Faria o senhor um favor à sua família e ao país se deixasse o lugar a outro daqui a 1 ano. Mas não. Aníbal tem outra característica marcante, a soberba. Julga-se sempre melhor do que é verdadeiramente.
coisas soltas destes dias chuvosos
Numa rua de São Marcos uma criança de uns 12 anos rodava descontroladamente com a sua bicicleta. Ao sentir a minha aproximação caiu. Tinha então já eu parado. Sorte de ambos.
Um pé humano foi descoberto na costa de Gaia. Sem explicação diz o noticiário televisivo. Não custará imaginar que não foi golpe autoinflingido.
Na rádio, um porta-voz autorizado do PSD, partido principal da oposição, diz que é ao partido de governo, o PS, que cabe encetar diálogo político a benefício do país. Apetece perguntar o trivial "pode repetir?"
O André é um tipo impecável, muito low profile. Hoje propôs-se dissuadir-me de comprar um disco por se encontrar a capa vincada. Perguntei se ficara o disco propriamente dito afectado. Que não. Então levo. Trata-se do raro disco dos londrinos the Invisible. E tem o meu exemplar um vinco talvez único.
Um pé humano foi descoberto na costa de Gaia. Sem explicação diz o noticiário televisivo. Não custará imaginar que não foi golpe autoinflingido.
Na rádio, um porta-voz autorizado do PSD, partido principal da oposição, diz que é ao partido de governo, o PS, que cabe encetar diálogo político a benefício do país. Apetece perguntar o trivial "pode repetir?"
O André é um tipo impecável, muito low profile. Hoje propôs-se dissuadir-me de comprar um disco por se encontrar a capa vincada. Perguntei se ficara o disco propriamente dito afectado. Que não. Então levo. Trata-se do raro disco dos londrinos the Invisible. E tem o meu exemplar um vinco talvez único.
as cores dissimuladas do hinduísmo
"A Hindu pilgrim arrives ahead of a prayer meeting on the banks of the river Ganges in the northern Indian town of Haridwar, December 30, 2009."
foto REUTERS/Rupak De Chowdhuri
o Humberto e eu
O Humberto e eu não nos entendemos mesmo. Não gosta que eu olhe para ele e eu não gosto que não goste que eu olhe. Por isso olho. Nem que seja para perceber o que haverá que leve alguém a não gostar que eu o olhe de frente.
Vem de longe este meu problema.
No liceu Pedro Nunes havia um tal Abel, um tipo bem mais velho, corpulento e ladino do Casal Ventoso, talvez o único mais pobre que eu daquele liceu. Nem durou uma semana até que me ameaçasse com um "se me continuas a olhar assim vou-te aos cornos". Fiz um esforço mas lá voltei à tendência. E lá me veio o Abel com um estalo dos que doem. Dessa vez, medida a desproporção corporal, lá me fiquei.
Voltando ao Humberto, a coisa fica mais escura quando a bebida já vem com ele. Como hoje. Mal o olhei, apenas fugazmente e lá estava a irritação bem espelhada. Um destes dias vou perguntar-lhe directamente o que o aflige tão intensamente. No caso longínquo do Abel dizia ele que era do sentido inquisitivo do meu olhar, que o desconfortava.
Nem por acaso, faz agora uns 25 anos, 10 anos depois do episódio do Abel, chegou a ser urdido contra mim um cerco seguido de ataque por parte de alguns "dealers" de droga do Casal Ventoso, o bairro do Abel. Nessa altura eu visitava quase diariamente o bairro, frequentemente vestido de preto, mala ou mochila preta também. Até que alguém os descansou com as minhas actividades político-sociais. O pensamento do gangue da Rua Principal do Casal Ventoso é que eu era um agente da PJ encapotado.
Já devia ser do olhar também.
Vem de longe este meu problema.
No liceu Pedro Nunes havia um tal Abel, um tipo bem mais velho, corpulento e ladino do Casal Ventoso, talvez o único mais pobre que eu daquele liceu. Nem durou uma semana até que me ameaçasse com um "se me continuas a olhar assim vou-te aos cornos". Fiz um esforço mas lá voltei à tendência. E lá me veio o Abel com um estalo dos que doem. Dessa vez, medida a desproporção corporal, lá me fiquei.
Voltando ao Humberto, a coisa fica mais escura quando a bebida já vem com ele. Como hoje. Mal o olhei, apenas fugazmente e lá estava a irritação bem espelhada. Um destes dias vou perguntar-lhe directamente o que o aflige tão intensamente. No caso longínquo do Abel dizia ele que era do sentido inquisitivo do meu olhar, que o desconfortava.
Nem por acaso, faz agora uns 25 anos, 10 anos depois do episódio do Abel, chegou a ser urdido contra mim um cerco seguido de ataque por parte de alguns "dealers" de droga do Casal Ventoso, o bairro do Abel. Nessa altura eu visitava quase diariamente o bairro, frequentemente vestido de preto, mala ou mochila preta também. Até que alguém os descansou com as minhas actividades político-sociais. O pensamento do gangue da Rua Principal do Casal Ventoso é que eu era um agente da PJ encapotado.
Já devia ser do olhar também.
há quem nunca tenha entendido porque foi o incrível Saraiva afastado do EXPRESSO. Ora eu acho que foi por estas e por outras
"Todas as noites passeio o Paco, o meu cão. Como é um bocado selvagem, procuro passeá-lo a horas mortas, para não importunar a vizinhança. Um destes dias, numa dessas saídas nocturnas, deparei-me com um placard luminoso em que nunca tinha reparado, onde se lia: Clínica do Pêlo. Assim mesmo.
Já uma vez escrevi sobre este tema. É um assunto que me intriga, porque não percebo esta verdadeira fúria da sociedade moderna contra os pêlos. Percebo que uma mulher deseje eliminar o buço. Ou que depile as pernas (embora as louras nórdicas geralmente não o façam). Mas faz-me tremenda confusão que um homem sinta necessidade de se depilar. Por que raio os homens hão-de querer imitar as mulheres? (...)"
ler o resto aqui
Já uma vez escrevi sobre este tema. É um assunto que me intriga, porque não percebo esta verdadeira fúria da sociedade moderna contra os pêlos. Percebo que uma mulher deseje eliminar o buço. Ou que depile as pernas (embora as louras nórdicas geralmente não o façam). Mas faz-me tremenda confusão que um homem sinta necessidade de se depilar. Por que raio os homens hão-de querer imitar as mulheres? (...)"
ler o resto aqui
1.1.10
uma boa notícia com 15 dias
O parlamento autonómico da Catalunha votou favoravelmente uma iniciativa popular que visava proibir as touradas e outros "espectáculos" com a morte do touro por assunto ou finalidade.
Seria muito interessante que semelhante iniciativa legislativa fosse levada a votação em Portugal. Podia até perder, mas seria de grande significado que a morte ou sacrifício "espectacular" de animais tivesse também por aqui resposta cultural da mesma igualha à dos corajosos parlamentares catalães.
Seria muito interessante que semelhante iniciativa legislativa fosse levada a votação em Portugal. Podia até perder, mas seria de grande significado que a morte ou sacrifício "espectacular" de animais tivesse também por aqui resposta cultural da mesma igualha à dos corajosos parlamentares catalães.
30.12.09
morreu o senhor Fernando
Parece que morreu o senhor Fernando, o bom velhote da drogaria da rua da Lapa.
Era eu petiz e já ia lá buscar artigos variados, como se ali estivesse um moderno bazar chinês. E em certa medida a drogaria lisboeta de há 30 anos era um bazar urbano de proximidade, como hoje são os tão úteis bazares chineses.
Já nada petiz, estive por lá a última vez há 2 anos. Não me reconheceu.
Perguntei por histórias de antanho e lá repetiu episódios que me dissera já mais de uma dezena de vezes. Foi-me grato ainda assim ouvi-lo e sentir que, descontada a antiguidade biológica, de dentro da sua bata branca e dos seus óculos de massa, o senhor Fernando continuava a ser o que sempre fôra, um vivo e interessantíssimo depositório de utilidades, conveniências e histórias vivas.
Era o senhor Fernando um ícone de uma certa Lisboa. Que já quase não há.
Era eu petiz e já ia lá buscar artigos variados, como se ali estivesse um moderno bazar chinês. E em certa medida a drogaria lisboeta de há 30 anos era um bazar urbano de proximidade, como hoje são os tão úteis bazares chineses.
Já nada petiz, estive por lá a última vez há 2 anos. Não me reconheceu.
Perguntei por histórias de antanho e lá repetiu episódios que me dissera já mais de uma dezena de vezes. Foi-me grato ainda assim ouvi-lo e sentir que, descontada a antiguidade biológica, de dentro da sua bata branca e dos seus óculos de massa, o senhor Fernando continuava a ser o que sempre fôra, um vivo e interessantíssimo depositório de utilidades, conveniências e histórias vivas.
Era o senhor Fernando um ícone de uma certa Lisboa. Que já quase não há.
27.12.09
uma criança afegã
"An Afghan girl watches U.S. Army soldiers from Task Force Bravo 2/151 infantry during a patrol at Alo Khil village in Khowst province, Afghanistan, December 26, 2009."
foto: REUTERS/Zohra Bensemra
histórias fantásticas de um dia muito frio
Na vilazinha espanhola de Alberca há um porco preto de cerca de 100 quilos que se passeia em paz pelas ruas, por entre turistas e locais.
Algures em Janeiro será leiloado e alguém o poderá enfim tornar ingrediente de mesa. Ou não.
Um nutricionista vem à televisão dizer o que não se compreende que não seja ensinado "urbi et orbi", que há remédios naturais para os excessos alimentares, designadamente os excessos de açúcar. Duas nozes comidas entre refeições podem fazer milagres, diz o senhor. A toma de canela ou uma dieta de sopas e iogurtes líquidos no dia seguinte podem também ajudar deveras.
Parece haver portugueses que dispendem 800 euros num alisamento de cabelos, segundo técnicas "japonesas".
Na zona mais séria da vida, um jovem nigeriano, ontem, ia-se fazendo explodir num avião, já em território norte-americano. Não se sabe mais o que dizer, ao perceber-se que o 11 de Setembro de 2001 afinal não deixou todas as lições de que necessitamos. É que, antes como agora, a guerra ao terror começa dentro de portas, começa até em nós. Por fortuna, desta vez o azar esteve com o agente do terror. E já aí estão as "trancas na porta", acompanhadas de mensagens diplomáticas e garantias de melhoria global e definitiva da segurança das aeroviagens. Até ao próximo desmazelo.
Algures em Janeiro será leiloado e alguém o poderá enfim tornar ingrediente de mesa. Ou não.
Um nutricionista vem à televisão dizer o que não se compreende que não seja ensinado "urbi et orbi", que há remédios naturais para os excessos alimentares, designadamente os excessos de açúcar. Duas nozes comidas entre refeições podem fazer milagres, diz o senhor. A toma de canela ou uma dieta de sopas e iogurtes líquidos no dia seguinte podem também ajudar deveras.
Parece haver portugueses que dispendem 800 euros num alisamento de cabelos, segundo técnicas "japonesas".
Na zona mais séria da vida, um jovem nigeriano, ontem, ia-se fazendo explodir num avião, já em território norte-americano. Não se sabe mais o que dizer, ao perceber-se que o 11 de Setembro de 2001 afinal não deixou todas as lições de que necessitamos. É que, antes como agora, a guerra ao terror começa dentro de portas, começa até em nós. Por fortuna, desta vez o azar esteve com o agente do terror. E já aí estão as "trancas na porta", acompanhadas de mensagens diplomáticas e garantias de melhoria global e definitiva da segurança das aeroviagens. Até ao próximo desmazelo.
os melhores álbuns de canções Pop de 2009, segundo alguns
Merriweather Post Pavilion, de Animal Collective
Mojo
Pitchfork
PopMatters.com
PÚBLICO/Ipsilon
Spin
Times online
Uncut
Middle Cyclone, de Neko Case
Amazon.com
Barnes & Noble
the XX, de XX
Fact Magazine
Guardian
Wolfgang Amadeus Phoenix, de Phoenix
DrownedInSound.com
Travail, Transformation and Flow, de Steve Lehman Octet
New York Times
Primary Colours, de the Horrors
NME
25.12.09
o Natal é das crianças, as que são e as que somos
É uma mistificação pensar-se que o Natal se fez para os adultos que somos. Não. O Natal fez-se para as crianças que somos e para as crianças que são mesmo crianças.
Ele são as prendas, a cor e o fausto das mesas, os risos e as histórias que uma e outra vez se conta à mesa.
No Natal dos que não têm problemas a fantasia ganha o seu lugar em casa. Apenas para esses há verdadeiramente Natal.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















