
1. José Gomes Ferreira será um notável jornalista, provavelmente um bom subdirector na
SIC e é decerto um homem inteligente, capaz de conduzir belissimamente conversas e debates nos programas que protagoniza.
Ricardo Costa é, visivelmente, capaz de boa racionalidade analítica, arguto e rápido na resposta e, frequentemente, é dotado da coragem para a opinião sem "rodriguinhos". Vai "directo ao ponto", utilizando uma conveniente expressão idiomática da anglofonia.
Por serem dois dos melhores exemplos entre os jornalistas no activo que têm entre 30 e 40 anos, eles representam bem uma geração de homens das notícias que fizeram o seu percurso reportando a realidade, sendo anfitriões de debates e entrevistas com gente realmente valiosa e sabedora e que hoje detêm posições de verdadeiro poder. Mas nem o Ricardo nem o José, seguramente dois dos melhores entre os seus pares, nenhum deles tem dimensão e autoridade intelectual para a produção de opiniões que a sociedade possa aceitar como definitivas e categóricas.
Ultimamente, por exemplo no "Expresso da Meia Noite" (SIC Notícias), Ricardo Costa interrope e contradita os seus convidados, estabelecendo doutrina que logo parece pensamento de dono da casa. Muito raramente alguém se contrapõe ao Ricardo, talvez temendo o risco da exclusão em futuras edições.
Com o José Gomes Ferreira as coisas são algo diferentes. O Gomes Ferreira é mais cordial que o Ricardo, mais comedido, mais prudente. Mas por vezes lá lhe surge a tentação categórica.
Hoje o Gomes Ferreira foi chamado ao "Jornal das 8" para comentar a expectativa de impacto dos primeiros grandes custos dos investimentos públicos em preparação ou em arranque, que se antevê irem suceder entre 2014 e 2015, agravando por isso as contas públicas e o "défice externo". Perguntado por Clara de Sousa se teria o governo de Sócrates sido imprudente ao lançar um conjunto de investimentos públicos, José Gomes Ferreira não teve dúvidas em assinar uma opinião confirmativa, sem direito a contraditório. Que foi imprudente, sentenciou. De pouco valeu que o essencial da ainda fresca campanha eleitoral não tenha versado sobre outra coisa.
Gomes Ferreira fez de conta que nada se debateu e que o país sobre nada votou e lá veio a sentença de que Sócrates foi imprudente, ponto final na discussão.
Claro que o direito de opinar do José Gomes Ferreira ou do Ricardo Costa é o mesmo que o meu. As empresas de comunicação social, na melhor tradição da SIC dos seus primórdios, como ainda hoje em grande medida se faz na SIC Notícias, devem é cuidar bem dos seus deveres de seriedade e imparcialidade para quem escuta o que ali se diz. Ou seja, sendo o tema de importância considerável, deve escolher gente com autoridade reconhecível, pessoas com currículo, com lugar intelectual ou papel histórico que se possa escutar com consideração de que afirmará sempre com propriedade. E deve ser assegurado o contraditório.
O que defendo é um pouco o que se faz sobre os temas da "Gripe A". Ou se convida um técnico de saúde especializado ou então um sábio ou um institucional com envolvimento de notoriedade reconhecível na matéria. O que sobretudo as televisões vêm ultimamente fazendo nos temas político-económicos equivale um pouco a como se chamasse o jornalista que habitualmente cobre os temas de saúde para dar conselhos ou estabelecer doutrinas sobre a evolução da epidemia ou de como resolver o seu impacto social.
2. Dito isto, no dia do 17º aniversário, repito o meu reconhecimento pela extraordinária qualidade da SIC e sobretudo da SIC Notícias e das suas equipas e indivíduos no estabelecimento em Portugal dos melhores padrões televisivos de referência, numa dimensão como só encontro par e antecessores em 3 outras instituições do jornalismo em Portugal: o jornal diário "PÚBLICO", o jornal semanário "EXPRESSO" e a rádio TSF.