segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

e afinal a mudança é tão pouco?

Não, não falamos da mudança do mundo, que tarda, frustra e será sempre mais pequena que a ambição e a vontade.
O Café Clube é que vai mudar pouco.
Muda para já na tinta das paredes.
E a vida e a música vão aparecer mais, muito mais, absorvendo muito do que no Diversus se foi fazendo desde 2003.
O Café Clube poderia até ser a partir de agora Café Concerto. Mas não. Continuará a ser o Café Clube.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

um Café entaipado (para melhoramentos)

Aqui o Café Clube - como o seu parente mais ritmado, o Diversus - tem estado meio parado, preparando obras de melhoramentos.
Entre os sócios cá fomos vendo que a ementa andava demasiado monocórdica, demasiado dependente das coisas pequenas de todos os dias, quase fragmentos de espuma.
Não é tanto a pintura que procuraremos mudar mas o menu. Em lugar da ementa fixa vamos tentar entrar pela cultura da multi-gastrologia. Procuraremos a universalidade e a intemporalidade que mesmo cada um dos dias até é capaz de trazer.
Não se espere grande coisa. Mas alguma coisa aí vem. Aguentem aí.

sábado, 14 de Novembro de 2009

elas não matam mas...

O ataque non-stop a José Sócrates tem tido episódios sucessivos, há já vários anos, sempre com a mesma fonte, a judicatura e as suas imparáveis fugas.
Não espanta por isso que o recém-promovido ministro Vieira da Silva tenha vindo falar em "espionagem política", deixando em subtexto que tal montagem se faria orquestradamente por outrém mas com a colaboração dos meios dos órgãos de investigação e acusação judicial.
E nem parece inconcebível que assim seja, pois que de há pelo menos 6 anos a esta parte é, processo BPN à parte, sempre sobre o PS e os seus dirigentes e mais próximos que tais campanhas via "media" incidem. Se isto não é, pelo menos, perseguição, é então o quê?

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

o retorno do presidente ao lugar em que já foi infeliz

"Face Oculta: Cavaco Silva diz-se preocupado

O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, voltou hoje a escusar-se a comentar o processo Face Oculta, mas revelou estar preocupado com o caso."


in PÚBLICO on line, hoje


E que dizer da persistência de Cavaco Silva em garantir que não comenta temas da Justiça e em concreto que envolvam outros órgãos de soberania, mas que, acto contínuo, logo depois da vírgula, acelera e lança o ferro ao corpo da vítima do costume?
Cavaco Silva foi imensamente fustigado na sua popularidade pela parcialidade revelada no caminho para as eleições. Ora, não bastou tê-las perdido ainda há 1 mês e meio e lá está ele no papel em que tão mal se deu, o do principal anti-Sócrates da cena política portuguesa. É tentação mais forte que o seu apego institucional, este sempre em registo demasiado parco para o que lhe exigiria a função.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

a espinha cravada na garganta do Reino Unido que é Belfast



"A member of a cross-community group takes part in a ceremony marking the 20th anniversary of the collapse of the Berlin Wall, at a "Peace Line" in west Belfast, Northern Ireland November 9, 2009. "Peace Lines" or Walls were erected during "the troubles" to separate the Catholics and Protestants. The red lines across the person's face is caused by another photographer's auto focus assist."

foto REUTERS/Cathal McNaughton

um culpado há muito anunciado

Há um culpado do costume, que é de há anos o mesmo. Anos depois, nenhuma prova está provada, mas muito rumor e imensa inventiva continua sem cessar. Hoje ouvi até que muitos seus primos e primas e amigos e amigas estavam colocados por todo o lado, em rede, e que quase todos estavam despedidos ou em vias de o serem. O azar de muitos é que o homem até ganhou eleições ainda há semanas.
Mas que tão grandes interesses se concertam e mobilizam ainda para o abater, sem cessarem nos esforços? Que poderes mágicos adormecidos ou que ninho de vespas foi Sócrates afrontar? Talvez um dia o país lhe agradeça as penas, ou apenas o esqueça.

domingo, 8 de Novembro de 2009

a mania dos telemóveis


Alguns dos políticos portugueses mais influentes e poderosos parece estarem em sintonia com a nata dos empresários de província na sua adesão e fascínio pela telefonia, ou seja pelos meios de transmissão da voz, cablada ou aereamente.
Há mais de 20 anos militava este cafeeiro num pequenino partido de uma das extremas políticas, metendo-se consecutivamente em pequenas e médias causas públicas, todas capazes de afectarem interesses, locais ou até maiores.
Não havia então telemóveis e, por sinal, o meu telefone fixo até era vermelho.
Nunca soube de fonte certa, claro, mas apostaria eu dez contra um que a partir de determinada altura fui escutado pelas "autoridades".
Várias vezes correligionários meus interlocutores me preveniam então para as precauções a ter nas conversas por fios. E se eu escorregava um pouco mais, não raras vezes, lá vinha a nota de que seria melhor que nos calássemos, ou mudássemos de assunto.
E durante alguns anos lá estavam os tão suspeitos ruídos, aparentemente assinalando de entrada do escutador.
E que discutiamos nós então? Coisas dos bairros ou da cidade, tácticas eleitorais de escala pequenina, minudências de projecção quase invisível
Ora então, mais de 20 anos decorridos, os trâmites e processos do caso Casa Pia aí tão à vista de todos, parece que até os mais escutáveis entre os políticos se atrevem ainda hoje a falar ao telefone de tudo e qualquer coisa, desde que o interlocutor se atreva a "puxar o assunto".
É caso para que se diga, já e sem rodeios, que, se se confirmar as mais tremendas suspeitas que alguns jornais têm desvendado, é preciso que todos os envolvidos sejam castigados sem piedade e removidos de responsabilidades públicas. Até pela incrível estupidez que, a confirmarem-se tais histórias, terão revelado ao "deixarem-se apanhar". O país merece melhor do que palermas que caem sem prudência nem inteligência na tentação primária de brincarem aos telefones.

a previsível desgraça de Aníbal Cavaco Silva

"Cavaco Silva já não é o mais popular
A popularidade de Cavaco Silva não pára de cair. Uma sondagem da Rádio Renascença, SIC e Expresso, revela que o Presidente da República registou um queda bastante significativa, de 27,4% para 3,5%."

ler o resto aqui

in I de hoje

a importância de ganhar e de perder

Todos já perdemos. Todos já ganhámos. Sabemos que sem dúvida ainda perderemos e que também ainda haveremos de voltar a ganhar.
Aconteceu algo na engenharia dos automóveis que me parece aplicar-se bem à vida de todos.
Os cientistas descobriram um modo de se aproveitar a energia liberta nas travagens. Quando premido o travão é gerada uma energia considerável, tanto maior quanto a potência da travagem. Essa energia é acumulada e depois reutilizada em caso de necessidade, designadamente quando se precisa de acelerar a fundo.
Esta é a descrição simples (e simplista) de um sistema e um princípio que poderiamos aplicar à vida e às nossas oscilações de fortuna. Falo pois da vantagem de se aproveitar a força das nossas vitórias como capital para as derrotas seguintes.
No caso dos humanos não é possível que se constitua uma bateria ou um pequeno motor supletivo. Então como resolver o desafio? Através do nosso único dispositivo capaz de fazer compensações, a inteligência.

agora já mais que sinais da mudança Obama

"EUA: proposta de reforma do sistema de saúde passou na Câmara dos Representantes

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos passou a proposta de reforma do sistema de saúde, que prevê o alargamento da cobertura médica a quase toda a população norte-americana."


in PÚBLICO on line, hoje

sábado, 7 de Novembro de 2009

sinais da habitual discrição da Justiça em Portugal

"Pinto Monteiro confirmou hoje que a conversa telefónica de Armando Vara e José Sócrates está a ser avaliada, no âmbito do caso Face Oculta. Tudo será tornado público logo que possível, garantiu."

in PÚBLICO on line, hoje

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

um mesmo azul com dois sociais contrastantes por dentro


A bata era azul. O casaco também. Debaixo da bata suor. O casaco vestia pele perfumada. A bata sujara-se há já muitas horas, pequenas manchas. O casaco ia imaculado. A pele que a bata vestia era negra. O casaco contrastava com o branco profundo daquela outra pele. E havia ainda ouros, pechisbeques e outras cores variadas, junto ao fino casaco. Por debaixo daquela bata de trabalho, em seu redor, nada senão uma mulher de limpezas. Por todo o lado à volta do casaco azul se percebia uma mulher rica, talvez das torres distintas junto ao Califa. Pois naquele preciso instante a mulher rica estremeceu. Foi quando a bata azul tocou o casaco azul, ombro com ombro, azul tão igual ao outro azul, um e a outra bem justos e de toque tão elegante em ambos os corpos. Como se os dois tivessem sido traçados por um mesmo consagrado estilista. Mas o problema maior foi decerto a cor. É que se a mulher rica, quase bela, pois se ela vestia aquele azul esse será o azul desta estação, medido e testado quem sabe se não em Los Angeles ou Paris?! Como pudera aquela imigrante, talvez moradora nas barracas de Sacavém ou Oeiras, como se atrevera ela a escolher o mesmo azul e a tanto porfiar no aprumo do vestir da sua bata de merda?
Quando a mulher rica passava por mim, poucos metros depois, olhou uma última vez para trás. A mulher negra da bata com o mesmo azul parara e puxara de um longo cigarro, que naquele momento acendia. Talvez tenha percebido a verdade daquele instante. Talvez nem isso lhe interessasse e até desprezasse este seu azul.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

um princípio de humanidade, antes de ser do Direito

Em contraposição ao princípio da presunção da culpa, a presunção da inocência dos cidadãos é um princípio nada técnico-jurídico. E, ao contrário do que se costuma afirmar, é aos cidadãos mais comuns, os mais anónimos e expostos que este princípio sobretudo interessa e serve.
É um valor da humanidade, decerto inspirado no "rousseaunianismo", e é um valor também da democracia, que preserva o mais fraco, o cidadão, do despotismo de quem controla a riqueza e o poder. Hoje como há 300 anos, quando as constituições modernas o começavam a erigir como núcleo do edifício de leis.
Vem esta consideração a propósito de mais um caso de acusação directa a um conjunto de homens, alguns deles particularmente públicos e num caso em concreto, o de Armando Vara, alguém já especialmente fustigado nos últimos anos.
As acusações de corrupção que sobre eles todos os dias agora desfilam terão de ser provadas para além de qualquer dúvida e em sede de tribunal. O direito à defesa e ao contraditório são instrumentos da mais elementar cidadania e outro princípio fundamental das leis nas sociedades civilizadas.
Mas, como já sucedeu com Sócrates, restam poucas dúvidas que largos meses de andanças judiciais e de "fugas de informação" vêm aí e que para o comum dos cidadãos Vara e os outros são presumidos culpados.
Pois é muito pouco democrática e pouco fundada no melhor Direito a nossa sociedade. Na mesma medida que aos olhos de muitos dos nossos vizinhos todos somos culpados de alguma coisa. Eles só não sabem bem o quê. Mas hão-de encontrar.

domingo, 1 de Novembro de 2009

as palavras sábias do António Pinto Leite (já com uma semana, mas hoje tão actuais)

"... É-se lider jovem não porque se é jovem mas porque se é líder"

António Pinto Leite in EXPRESSO de 24 de Outubro pp.

hoje perdi um amigo


está uma história sobre o António Sérgio no Diversus

de vez em quando regressa o Ron Paul e estilhaça não sei quantas convicções

sinais da democracia afegã



"Detained Afghan nationals sit in a lockup at a police station in Karachi October 30, 2009"

foto REUTERS/Athar Hussain

sábado, 31 de Outubro de 2009

"Democracia, é lá fora?"

"A Fleximol é uma empresa do Cartaxo que empregava 171 trabalhadores quando entrou em Lay-Off, no passado mês de Janeiro. Recentemente, os trabalhadores decidiram criar uma Comissão de Trabalhadores para enfrentar a situação difícil em que se encontram.

A Administração da Empresa teve uma resposta rápida e eficaz: Despediu todos os trabalhadores da Comissão Sindical e da Comissão de Trabalhadores, efectivos e suplentes. Juntou-lhes mais alguns (todos subscritores da lista vencedora) e chamou-lhe um despedimento colectivo (...)"


(para ler o resto)

in "Ladrões de Bicicletas", dia 27

o PSD de Marcelo

Marcelo está longe de ser solução amada no PSD. Mas é nesta altura conveniente. O partido tem sido maltratado por quem o devia prezar acima de todos. Foi primeiro a deserção de Cavaco, depois a desistência de Nogueira, a efemeridade de Marcelo I, o calculismo de Barroso, a insuperável fragilidade de Lopes, o quixotismo de Mendes, a vulnerabilidade de Menezes, e agora deixará de ser líder também Manuela, a mulher da improvável verdade.
A escolha do Marcelo II constitui acima de tudo uma rejeição à hipótese Coelho. E é por isso, outra vez, uma solução para cair mais adiante.
Mas Marcelo, um menino de sessenta e tal anos, parece gostar destes enredos. Já quanto ao país, com o PSD, lá seguirá o bailarico para as ruas do frenesim e da pura táctica de oportunidades.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

os pobres laranjitas

Vai mesmo pobrezito o PSD.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

um semi-governo

Acompanho muito a opinião que este novo governo é uma meia decepção. E é meia decepção pela fragilidade da metade de ministros que é nova, excepção feita a Alberto Martins e Jorge Lacão.
Até por se tratar de um governo a precisar de flexibilidade, capacidade de negociação e choque, ter-se escolhido tecnocratas em lugar de verdadeiros políticos representará uma de duas coisas, ou a vontade de oferecer vítimas fáceis e "virgens" à voragem do combate político, ou então é apenas um tremendo erro de avaliação, procurando responder com a inocuidade e o anonimato dos novos protagonistas a uma certa saturação dos políticos e do próprio Sócrates.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

um triste atavismo nosso

"Portugal é o segundo país com mais serviços públicos online (entre os países da OCDE) mas poucos cidadãos os usam"

in PÚBLICO on line, ontem

domingo, 25 de Outubro de 2009

um homem de confiança


Miguel Frasquilho é um alto quadro do Banco Espírito Santo. Nesse seu papel esteve há umas 2 semanas na Bolsa de Nova Iorque, com os seus pares dirigentes do importante grupo bancário.
O Miguel aproveitou então para fazer um rasgado elogio do estado geral da economia portuguesa, relevando um conjunto de indicadores macroeconómicos em que o Portugal de 2009 se destacaria positivamente.
Estaria tudo normal não fosse o Miguel o principal porta-voz, de há uns anos, do PSD para os assuntos da economia e finanças, vindo a público regularmente vergastar forte e feio a performance e os resultados do governo português.
Aliás, fê-lo mesmo já depois de ter falado em Nova Iorque.
Confuso? Não. É apenas um dirigente do PSD.

um desnivelado Vasco

Parece que o José Saramago perfez não mais que a chamada "4ª classe". Na 6ª fª, no seu espaço de opinião no "PÚBLICO" o Vasco Pulido Valente apoucou-o miseravelmente por isso.
Pois faço notar ao pedante Vasco que também Herberto Helder e Agustina Bessa-Luis consta que estiveram na escola apenas até à "4ª classe". E, vamos cá convir, ao pé deles, meu caro, vosselência é isso sim um palerma. Como bem se demonstra pelo seu merdoso texto.

sábado, 24 de Outubro de 2009

Pedro Passos Coelho: quer o PSD um político pequeno?

Quase deposta a chefe, o PSD parece condenado a ir ter por líder Pedro Passos Coelho. O Pedro nunca fez o que fosse que agora o recomende para chefe do PSD e putativo Primeiro-Ministro alternativo para este país.
Tem a chamada "boa imagem" e uma boa cultura comunicacional. Mas isso também têm dezenas de locutores televisivos, o que não os qualifica para decidir sobre onde gastar os 80 milhares de milhões de euros que o orçamento de estado disponibiliza.
O Passos Coelho tem ele sim andado por aí. Semeou alianças de interesses e põs-se a jeito de seniores do partido, como se fosse um príncipe à procura de doutrinadores e tutores.
Há um estigma no partido laranja, que parece transformá-lo num produtor de políticos pequenos em bicos de pés. Houve antes outro Pedro nesse pobre papel. Tudo acabou muito mal. O PSD parece não ter aprendido a lição.
E é claro que escasseiam as alternativas que o país possa respeitar. Como seria o caso de José Pacheco Pereira, ou o de Rui Rio.

dores do Paquistão



"A worker carries boxes of cooking oil to distribute among internally displaced people fleeing a military offensive in South Waziristan at a camp on the outskirts of Dera Ismail Khan, located in Pakistan's restive North West Frontier Province October 23, 2009."

foto REUTERS/Akhtar Soomro

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

o Saramago e o padre

Foi impressão minha ou o padre Carreira das Neves foi à SIC esta noite levar "tau tau" de José Saramago?

sobre a vacina contra a gripe A

Ao que parece, muitos enfermeiros do serviço público "Saúde 24", um espaço de apoio médico e assistencial aos cidadãos, anunciaram recusar tomar a vacina que deverão ter de aconselhar a um terço dos portugueses.
Não encontro, nos últimos tempos, absurdo maior na vida pública. E pergunto-me depois como é que serviços de saúde da primeira linha desconfiam daquilo que a ciência e as organizações de nivel mundial aprovaram como o grande instrumento de combate à pandemia gripal por tantos temida? E sobretudo não entendo a pobreza das justificações apresentadas por alguns entre eles.
A benefício da missão de protecção dos mais fracos e doentes, há um incontornável dever de explicação por parte do responsável governativo.

elogio de Helena André


José Sócrates escolheu Helena André para ministra do Trabalho e da Segurança Social.
Helena é uma sindicalista com mais de 20 anos de experiência de liderança. Mas não é uma qualquer sindicalista. Escolheu o sindicalismo moderado e ascendeu a secretária-geral adjunta da Confederação Europeia de Sindicatos.
Este historial da Helena não é desprezível. Espera-se desse seu activo uma reforçada capacidade de intervenção na requalificação e no combate às chagas de um desemprego que afecta hoje mais de meio milhão de portugueses.
O primeiro ciclo desta legislatura parece dar sinais claros do que se pretende: o maior enfoque nos direitos de quem mais sofre com a crise.
Os patrões, pela voz do inefável Francisco Van Zeller, já protestam e acenam com o pavor do sindicalismo totalitarista de há 34 anos. O país regista e tem de seguir caminho. Helena André tem um papel difícil e uma expectativa elevada junto dos portugueses. Ela não é uma qualquer burocrata, uma qualquer cinzenta política do espaço central. Helena conhece, viveu e tem deveres de consciência para com as vítimas da crise.

quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

a Bíblia e a superior contribuição do Francisco

"Sobre a Bíblia há mais do que José Saramago diz (como bom ortodoxo, inspirou-se na ortodoxia adversária). Em primeiro lugar, não se trata de um programa ideológico nem de um guia para a vida prática. Não se limita a enumerar leis de há milhares de anos nem a mostrar os castigos aplicados aos humanos. Não reproduz a história de um Deus material e conveniente. Não é um manifesto para a mudança do mundo. É, antes, o repositório de narrativas que transitam de um povo errante para uma civilização que ocupou o seu lugar no mapa. Não se pode olhar a Bíblia como gostaríamos que fosse – mas como uma hipótese sobre o nosso medo do passado e dos seus mitos. Os fundamentalistas olham-na como tudo; os seus adversários olham-no como nada. Está aí: é papel, é história, narrativa."

Francisco José Viegas, n' "A Origem das Espécies", dia 20

terça-feira, 20 de Outubro de 2009

há quem persista em carregar os malfadados genes da "Santa" Inquisição

"O eurodeputado social-democrata Mário David exortou Saramago a renunciar à cidadania portuguesa por se sentir “envergonhado” com as recentes declarações do Nobel."

in PÚBLICO on line, hoje

o mérito do Saramago

José Saramago já não é bem um comunista. Com o tempo, para lá de uns quantos truísmos, o Zé transformou-se sobretudo num criador de eventos, num inventor de notícias sem substância própria. Ele nem é bem um agitador, pois o agitador faz ondas que outros aproveitam.
Para lá do que escreve e romanceia, o Saramago não é bem um pensador, um filósofo. As suas reacções e comentários são antes frequentemente semelhantes a birras juvenis, com o sentido principal de granjear atenção.
Dito isto, é bem verdade que a "Bíblia" é um livro (de livros) raramente discutido em público. E mesmo que o tenha feito panfletária e pobremente, tê-lo feito já é um pequeno mérito do Zé.

segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

o Ângelo disse-o com as palavras todas

"Ferreira Leite não olhou para o país. Olhar para Belém ou para S. Bento pode ter a sua importância, mas nesta altura interessava olhar para portugal. Falhou a relação do partido com o povo."

in "Diário de Notícias", ontem, domingo

domingo, 18 de Outubro de 2009

na Palestina



"A Palestinian girl sleeps in front of a house, destroyed during the three-week offensive Israel launched last December, in the northern Gaza Strip October 16, 2009"

foto REUTERS/Mohammed Salem

como eu te percebo, ó Zé

"Já fui rico e já fui pobre. Prefiro ser rico."

palavras atribuidas a José Sócrates, por estes dias, reportando-se ao facto de ter tido e agora não ter maioria parlamentar

as palavras ínvias do João

"Para efeitos práticos, é indiferente eleger Deus Pinheiro ou a minha mulher-a-dias. E é indiferente substituí-los, embora eu desconfie de que a minha Fátima, tão sensata e pontual, seria uma vantagem para o hemiciclo. Se precisarem do contacto, por favor, não hesitem."

João Pereira Coutinho in "Correio da Manhã" de ontem

sábado, 17 de Outubro de 2009

da necessidade de Manuela Ferreira Leite

Pode parecer grande contradição e até desfaçatez, mas tendo a considerar que o país precisa que Manuela Ferreira Leite continue lider do PSD.
Por muitas razões, bastamente neste Café disssecadas, não tenho dúvidas que Manuela teria sido uma má primeira-ministra.
Pelas melhores razões, mas sobretudo pela necessidade de uma contraposição céptica e realista na oposição ao governo, Manuela Ferreira Leite tem condições para fazer um trabalho sério a benefício das decisões e das políticas governativas de José Sócrates.
Já sobre os interesses do PSD, cabe dizer que talvez até sejam coincidentes com os do país. Como de resto os de todos os partidos. A colaboração construtiva mas crítica de todos eles é um dever inalienável face a todos os seus eleitores.

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

o Pedro e os lobos

Piada do dia: o Tiago Geraldo, insigne do 31 da Armada, aponta um mérito adicional à putativa candidatura de Passos Coelho a lider do PSD: o Tiago sentiu-se compelido a inscrever-se no partido laranja. Foi ontem... para votar contra o Pedro. Malvadez pura.

exemplos de erudição

Alguém afirmava há dias que José Saramago e Agustina Bessa-Luís têm como nível de instrução escolar a antiga "4ª classe". Não fui confirmar. Se for verdade não me surpreende assim tanto.
A sua escrita é, em ambos os casos, conceituada em escala universal.
A complexidade dos seus enredos, a erudição dos seus personagens, das histórias, dos retratos sociais e culturais atingiram o mais indiscutível grau, como o bem provam as múltiplas nomeações, prémios e distinções, goste-se ou não dos seus livros.
Já antes aqui no Café se referiu o exemplo do Sr. Adelino, o merceeiro com origem na Guarda que durante anos em Lisboa servia um dos mais burgueses bairros de Lisboa, a Estrela.
Homem com a antes chamada "2ª classe", o Sr. Adelino dava aos seus clientes exemplos diários de cultura de cliente, de capacidade de resolução de conflitos e tensões, de criação e reforço obstinado de mecanismos de fidelidade e adesão à sua marca e ao seu serviço.
Muitas vezes, ao constatar o insucesso de licenciadíssimos gestores de empresas perto de mim, me recordei das tremendas lições que o Sr. Adelino a todos eles poderia ter dado.
E lá continua bem viva a mercearia do Sr. Adelino, agora já com o seu filho no comando, ele já um doutorado engenheiro químico. Falo do lugar em que um dia às batatas e às cebolas se juntaram o New York Times ou o The Guardian.

mas também está já aí o PS preocupante

Preocupante foi ter escutado José Sócrates a falar hoje aos jornalistas, ao início da noite, para se referir aos objectivos, vontades e compromissos que ele tinha, tinha tido ou iria ter.
Não o PS, mas ele, a pessoa José Sócrates.
Esta pessoalização do PS e do futuro governo tem responsáveis. O primeiro é o próprio, que pode hoje ter aqui dado um preocupante sinal.
Mas há outros culpados. Por exemplo Manuela Ferreira Leite e todos os que em seu redor acabaram por tornar a eleição de 27 de Setembro um autêntico plebiscito ao homem e ao seu carácter. Não tendo prevalecido a sua tentativa de demolição, a vitória confortável do PS acabou por redundar num reforço poucas vezes visto do papel de um homem acossado como nunca antes em Portugal.
Só que eu, que apoiei José Sócrates e o PS, ainda aprecio a virtude republicana do desapossamento pessoal dos cargos representativos. E vi pouco disso no discurso desta noite de José Sócrates.

Jaime Gama, um homem de consensos


Todos os partidos, bom, quase todos, já tiveram os seus homens consensuais, figuras com estatura suprapartidária, detentoras de autoridade própria, não tributárias do partido.
Jaime Gama é um deles.
A sua eleição unânime para continuar presidente da Assembleia da República, hoje, no arranque da 11ª legislatura parlamentar, é uma consagração extraordinária que pode revelar-se auspiciosa para os entendimentos políticos que a governação vai obviamente impor.

aí está o PS bom

O PS pós-eleitoral mostrou hoje ao país que é capaz do melhor, ao decidir-se por Francisco Assis para líder parlamentar.
O Francisco Assis é um político deste tempo, ainda jovem (pouco mais de 40 anos) esclarecido, moderado, livre de espírito. Dele não se esperará postura estritamente aparelhística, antes o desprendimento suficiente para ser capaz de encontrar os agora obrigatórios entendimentos parlamentares.
Recordo uma história pessoal com Francisco Assis, uns 10 anos atrás, era o Francisco também lider parlamentar do PS, por alturas do governo de António Guterres.
Regressava eu de Inglaterra, onde tinha ido tratar de negócios de exportação, em tudo dependentes do tráfego marítimo. Nessa altura, ocorriam sucessivas greves dos trabalhadores portuários, que fortemente penalizavam a actividade que me cabia implementar.
O avião em que retornava fez então escala no Porto, e aí mesmo entrou o Francisco, que escolheu sentar-se na minha fila.
Aproveitei a oportunidade para o alertar para as perigosas implicações económicas nos mais pequenos exportadores de tal processo grevista, apelando a que o governo e o lider parlamentar interviessem, incentivando os entendimentos entre as partes. Tudo ouviu o Francisco, tomando mesmo algumas notas do que se tratava em tais negociações, de quem intervinha e até das sistemáticas dos exportadores.
Menos de 15 dias depois tudo cessava e os consensos negociais eram alcançados.
Até pelo perfil que já lhe conhecia e pelo percurso que depois lhe reconheci, fiquei sempre com a convicção que Francisco Assis tinha mesmo intervindo com vista à resolução do conflito. Tal e qual se deve esperar de um representante democrático.

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

a teoria do puro selvagem, o eleitor português (segundo Vasco Graça Moura)

"O resultado das legislativas não se limita a traduzir a profunda estupidez com que o eleitorado nacional se comportou. Levará o País aceleradamente na pior das sendas."

in "Diário de Notícias", hoje

(leia o texto integral aqui)

um debate a escaldar

Na segunda-feira à noite, 4 directores de órgãos de informação discutiram forte e feio na RTP à volta dos limites da verdade e da deontologia na sua missão, precisamente informar. As coisas lá foram azedando, até porque o pretexto era o famoso caso das escutas em Belém e porque José Manuel Fernandes (PÚBLICO), Henrique Monteiro (EXPRESSO) e João Marcelino (DIÁRIO DE NOTÍCIAS) estiveram presentes e ficaram-se de dores no meio da discussão.
Sem dissecar demasiado o que foi o teor da discussão, destaco apenas que os debates entre políticos ao pé daquilo pareciam acontecimentos infantis. Ali sim, foi tudo em alto calibre e tintas bem grossas, designadamente para com a jornalista moderadora. O que estes mesmos senhores não diriam se a veemência fosse a mesma e os protagonistas fossem políticos, em lugar de serem eles próprios?

terça-feira, 13 de Outubro de 2009

as cianças brincam



"A child casts a shadow on an umbrella while playing in the centre of Russia's Siberian city of Krasnoyarsk October 11, 2009."

foto REUTERS/Ilya Naymushin

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

o rodopio do Pacheco Pereira

O José Pacheco Pereira desfez-se esta noite em elogios e lisonjeios a Pedro Santana Lopes. O Pedro retribuiu. O país deve achar um piadão a este idílio entre comadres que ainda há meses se esbofeteavam em público.

ainda o Pedro

Santana Lopes diz que vai reflectir se vai ser vereador em Lisboa. Aqui da parte de um seu opositor, deixo o meu aplauso. Mas, com franqueza, ó Pedro, ainda precisa de umas horas para decidir? Ele há marcas que se colam à pele, e neste caso a pele também não descola da marca.

se há vitórias a assinalar, nestas eleições autárquicas ...

... essa não é do PSD. Sob todos os parâmetros, não foi o PSD quem conseguiu hoje ganhar.

o Pedro Santana Lopes

Agora que o Pedro Santana Lopes perdeu, é tempo de dizer que o seu comportamento na campanha eleitoral foi condigno e que conseguiu, com frequência, trazer à discussão importantes questões da cidade de Lisboa. Pena é que não se disponha a continuar vereador, para assim mesmo servir Lisboa.

domingo, 11 de Outubro de 2009

a habitual história dos vencedores sem derrotados

Quando, para apurar vencedores, se diz que ganha eleições quem tem mais presidências de câmaras municipais pode até parecer que faz sentido. Mas recordo que o Alvito, no distrito de Beja, tinha nestas eleições 2.120 eleitores inscritos e Lisboa tem mais de cem vezes esse número. Na tal contabilidade fácil contam o mesmo.

o adeus a Fátima Felgueiras e Avelino Ferreira Torres

As derrotas de Fátima Felgueiras, em Felgueiras, e de Avelino Ferreira Torres são duas das grandes notícias da noite.
Já em Gondomar e em Oeiras não foi assim.
E impressiona que seja no concelho que terá mais licenciados como seus habitantes, Oeiras, que a irresponsabilidade de boa parte dos seus cidadãos mais intensamente se manifeste. Mas também é certo que a democracia também foi feita para que os irresponsáveis possam votar.

as autárquicas às 20:50

Como bem referem alguns, o país perdeu os devaneios de fins de Setembro e lá voltou ao conforto da bipolarização, ao escolher ao centro.

a revisitação do futebol, às 20:43

Ouvir o PSD reclamar a vitória eleitoral nas eleições autárquicas de hoje pareceu-me equivaler a ouvir o Benfica a "cantar de galo" quando vence para a "Taça da Liga" a um clube de segunda divisão, depois de perder campeonatos nacionais sucessivos.

autárquicas às 20:11

Ainda segundo as mesmas sondagens, as candidaturas do Bloco de Esquerda em Lisboa e no Porto fracassarão clamorosamente, podendo nenhum dos seus cabeças de lista (Luis Fazenda e João Teixeira Lopes) ser eleito e fazer o BE regressar à dimensão do pequeno partido que sociologicamente ainda são.
Uma conclusão propomos aqui, que o Bloco perdeu porque não procurou e até rejeitou todos os esforços de convergência política, por exemplo em Lisboa, onde António Costa e o PS fizeram variadas tentativas, todas goradas. Afinal, o PS até acabou por fazer em Lisboa uma lista mais ampla que o próprio PS.

a noite das eleições autárquicas, às 20:02

As primeiras sondagens televisivas mostram a vitória tão clara quanto se esperava de Rui Rio e do PSD no Porto e uma vitória ainda muito em dúvida de António Costa sobre Pedro Santana Lopes em Lisboa. Nada é ainda seguro na capital.

elogio dos imigrantes em Portugal

Acho há já muito tempo que os estrangeiros que vêm para Portugal trabalhar e viver são um bem extraordinário. Ainda hoje tive a experiência desse benefício. Pedia um galão ao balcão e o brasileiro que me atendia não reconheceu imediatamente o que seria um galão. "É que estou começando hoje, me desculpe". Não aprecio especialmente que me peçam desculpa. Mas há momentos em que isso é necessário. Eu próprio, quantas vezes já não tive de pedir desculpa. O pedido de desculpas é também uma prova de respeito para com os outros.
Claro que em nada me prejudicou que ele não reconhecesse imediatamente o que fosse um galão. “Ah, uma caneca de leite com café?”, concluiu, depois de esclarecido.
O sentido pedido de desculpas que me foi dirigido dificilmente seria se não fosse ele estrangeiro. E há tanta coisa que no atendimento público tantos nos falham. Sem um pedido de desculpas, sem um só gesto de explicação ou compensação.
Depois do meu galão, talvez porque tenha sentido haver na falha sofrida daquele brasileiro o gesto da mais extraordinária humanidade que hoje encontrarei, senti que tinha de me despedir com algo que estivesse a seu nível, e lá me saí com um reforço de cumprimento. Para lá do singelo “obrigado”, despedi-me também com um “e tenha um bom dia”.

o CSI e as minhas hesitações de última hora, à beira do voto


Em Santa Isabel o CSI também concorreu às eleições de hoje. O CSI é o Compromisso por Santa Isabel, naturalmente. Talvez se lhe possa chamar CSI Santa Isabel. Pela piada do nome esolhido, talvez, lá percorri a lista do CSI. Vi nomes de família repetidos, uns a dois, outros a três. Serão pais e filhos? Avôs e netos? Não reconheci ninguém e fiquei a admitir que serão provavelmente todos vizinhos bem dispostos de um só prédio. Uma ideia gira, sem dúvida.
Santa Isabel é a freguesia lisboeta que me adoptou, tinha eu 3 anitos e provinha da quase vizinha Lapa, na altura ainda chamada de Prazeres, onde morava a minha avó Teresa. Fui a Santa Isabel fiel durante 38 anos e de algum modo ainda sou. Apesar de pela vida expulso para os bairros de caixas de cimento que rodeiam a grande cidade, lá volto sempre que posso, garantidamente quando há eleições. E depois há o privilégio de votar no magnífico e ao mesmo tempo tantas vezes dramático Liceu Pedro Nunes.
(Descansem que vou deixar os meus sonhos e os meus dramas do Pedro Nunes para outro dia.)
Pois hoje Santa Isabel reservava-me alguns problemas de consciência.
Numa das listas concorrentes à Assembleia de Freguesia vi o nome do meu amigo e extraordinário homem Mário Tomé. O Mário que foi deputado à Assembleia da República 4 anos, entre 1979 e 1983, e que foi o ícone e o excelente companheiro de várias lutas e discussões e utopias de quando eu tinha vinte e tal anos e fazia política com tanto gosto e empenho. Pois o Mário era hoje candidato de meio da lista ao lugar mais pequeno em que se faz política e eu tive muita pena de não poder votar no Mário. Neste caso em nome dos meus princípios, pois antes da pessoa, são sempre os programas, as ideias, os projectos e a matriz cultural que para mim prevalecem. Se fosse pelo indivíduo, seria no Mário Tomé que hoje votaria, pois ele é mesmo uma excelente pessoa. Diga o que disser quem não o conheceu.
Também me senti condoído por não poder votar no Rodrigo Moita de Deus. O Rodrigo é brilhante, tem um humor e uma inteligência raríssimas. Pelo menos o Rodrigo que conheço melhor, o Rodrigo que escreve no “31 da Armada”, ou o Rodrigo que se entretém a cultivar a sua cultura monárquica. Ora o Rodrigo era o último suplente daquela lista. E eu, mesmo que me dispusesse a trocar as convicções pelo prémio e o incentivo à inteligência e ao brilho do Rodrigo, não percebo como é que pode alguém ter o Rodrigo na lista e pô-lo em último suplente. Incrível.
Lá votei pois onde a razão me ditou.
Confio que um dia o modelo eleitoral perfeito há-de permitir-me o voto múltiplo, ou então dual, para que eu possa seleccionar não só a plataforma política (vulgo o partido) como os indivíduos para executarem os seus desígnios. Será então uma espécie de democracia de nova geração, uma 3.0, para usar um jargão deste tempo.

porque há pouco ouvi um cigano ser insultado, apenas porque não "piscou"


São muito interessantes os nossos concidadãos ciganos. Sobretudo no trânsito. As suas carrinhas são quase sempre brancas, grandes, os seus vidros laterais são fumados, preservando a privacidade. E raramente fazem “pisca” quando viram. Quando se lhes vê o facies, muitas vezes fumam um cigarro fino, normalmente descaído sobre o canto esquerdo dos lábios.
Ao ver os ciganos moverem-se de carro, muito atabalhoados e em geral pouco cuidadosos com as regras, recordo-me sempre das minhas incursões infantis no Algarve de há quase 40 anos. Era vê-los em cima de burros e mulas, à vezes com mulher e filhos em cima do mesmo burro. O engraçado é que os algarvios rurais também andavam em cima de burros e mulas. A diferença de então é que os algarvios não ciganos já começavam a ter lambretas e motorizadas, alguns até automóveis a sério, como o NSU da dona Roberta, do supermercado da Rua da Praça, em Armação de Pera.Teria eu os meus 7 anos e a primeira vez que fui com a dona Roberta até Alcantarilha fui no lugar da frente pois claro. E lembro-me bem de nessa minha primeira viagem no NSU da dona Roberta nos termos cruzado com não sei quantos conterrâneos que a olhavam de lado, pois conduzia depressa e raramente fazia “pisca”, todos diziam. Claro que a dona Roberta não era cigana de cultura.
Os ciganos vestem de preto. Mas cada vez mais os jovens que hoje têm 20 anos também vestem de preto. E, é engraçado, também agora parece que se instalou a moda de os carros serem brancos, como os dos ciganos.
E se há coisa que cobiço nos ciganos é aquele tipo de chapéus de aba que usam.
Haverá uns 25 anos conheci e fui amigo de uns quantos ciganos que viviam num dos bairros do alto da Ajuda, o bairro 2 de Maio. Um deles chamava-se Tomás e era palhaço de profissão. Raramente conheci um homem tão dedicado às crianças, a todas as crianças. Sim, eu sei que isso já se espera dos palhaços. Mas com o Tomás era extraordinário. E chorava mesmo na vida real, quando se confrontava com a miséria de outros seus concidadãos, os ciganos e os outros.
Conheci também então e fui amigo de um cigano homossexxual, de quem já não recordo o nome.
Eram os dois dos mais dedicados correlegionários que tive na minha avntura política de então, incansáveis no trabalho e dos mais humanos e zelosos nas suas responsabilidades.
E há tanto mais que me interessa nos ciganos, como a música, os seus preceitos sociais, o sentido de festa e de família, extraordinários ambos.
E há enfim a capacidade que muitas mulheres ciganas têm de ler a sina. Aproveitei muitas vezes essa capacidade. Sinto e temo que seja um uso que se vá perdendo nas novas gerações de ciganos.

da capacidade de investigadores como o Pedro Magalhães em ajudar a democracia

Hoje conheci de perto o Pedro Magalhães. Eis um bom pretexto para dar aqui nota pública de um dos mais notáveis cientistas sociais da nova geração.
O Pedro é um daqueles investigadores que nos habituámos a ver nas noites eleitorais, normalmente depois de ter conduzido sondagens, com frequência certeiras e sempre postas a público com equilíbrio argumentativo e adequada simplicidade. Mas tende sempre a aparecer como um técnico, uma espécie de especialista na “contagem de cabeças”.
Ora essa redução do Pedro à condição de um “técnico social”, ou “técnico de sondagens” é uma pena.
Para todos os que, como aqui os do Café, nos interessamos pelo que está para além dos meros números, não os dispensando embora, ler o Pedro Magalhães (no PÚBLICO, nos blogues) e escutá-lo representa sempre uma extraordinária economia de tempo.
E deixo uma sugestão a José Alberto Carvalho e à RTP, que, sobretudo em momentos eleitorais, nas semanas/meses anteriores, proporcione a personalidades como o Pedro Magalhães, ou como a Marina Costa Lobo, as necessárias condições para o exercício regular em antena pública da sua sabedoria própria.
Seria de resto uma boa alternativa aos (de resto bons) programas de gracejo com os políticos e as eleições por parte de outras estações televisivas, ou a programas da própria estação em que a opinião partidária comprometida tem lugar semanal cativo. A bem de uma melhor cultura democrática e de uma mais consciente participação eleitoral.

uma tribo especializada em matar

Disseram-me em tempos que há uma tribo em África onde os suicidios se podem comprar.
Passo a explicar.
Um dia a qualquer um pode assomar a tentação da inutilidade de continuar. Pode ser um desgosto, a sensação de tudo já não fazer sentido, o medo de uma doença terminal, ou o medo de alguém.
Nesse momento emergirá, mais que provavelmente, aquela que Sigmund Freud considerava a primeira pulsão que determina a vida, chame-se-lhe instinto de sobrevivência, medo da morte, ou qualquer outra coisa. Ou seja, o medo de morrer acaba quase sempre por se sobrepor à tentação de não viver mais, originando o não cumprimento da pulsão suicidária.
É aí que entraria a tal tribo, que olharia tal encomenda como qualquer outra. Alguém lá chegaria e diria “mate-me”. E morto seria, provavelmente logo ali, antes ainda que se arrependesse.
Nada mais sei sobre esta misteriosa tribo, que não sei sequer situar na geografia africana. Mas investigarei.